Autor: Cleber Dioni Tentardini

  • Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre nova fábrica de celulose no Estado

    Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre nova fábrica de celulose no Estado

    Não cabiam mais de 40 pessoas na pequena sala do 4° andar onde se realizou, nesta quarta-feira, 20/05, a Audiência Pública que a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, convocou para discutir os impactos sociais e ambientais da nova megafábrica de celulose da CMPC – empreendimento de R$ 25 bilhões, o “maior da história do Rio Grande do Sul”, segundo a imprensa.

    Mais de cem pessoas, inclusive jornalistas, tiveram que assistir pelo telão no lado de fora.

    A Fepam, órgão do governo do Estado responsável pela análise do Estudo de Impacto Ambiental do empreendimento, não enviou representantes.

    O diretor de Infraestrutura da CMPC, Otemar Alencastro, apresentou um resumo do projeto, já rebatendo as principais críticas dos ambientalistas.

    Disse que a empresa realizou até agora 33 reuniões para debater as quatro mil páginas do EIA-Rima da futura fábrica, e que continua ouvindo as demandas das comunidades indígenas da região de Barra do Ribeiro, cidade escolhida para abrigar o empreendimento.

    O risco de poluição da água do Guaíba com compostos químicos altamente nocivos, como dioxinas e furanos, apontado por especialistas, foi minimizado por Alencastro. Segundo ele, os efluentes resultantes do processo produtivos serão devolvidos ao rio depois de rigoroso tratamento e sem riscos de contaminação. 

    Alencastro afirmou que o empreendimento foi concebido com premissas de sustentabilidade, incluindo reciclagem da água, manejo de resíduos sólidos, redução de combustíveis fósseis, branqueamento ECF, redução do consumo de produtos químicos e tratamento de efluentes.

    Conforme o diretor, “estudos ambientais consideraram diferentes condições climáticas, incluindo cenários críticos de cheias e estiagens, a partir de modelos de dispersão no Guaíba”.

    Segundo o executivo, a fábrica estará localizada a cerca de dez quilômetros do centro urbano, sem impacto direto para os moradores, portanto. Quanto aos impactos econômicos do empreendimento, ele ressaltos que só em Barra do Ribeiro, onde se localizará a fábrica, haverá um incremento de 300 por cento na arrecadação do município.

    Já o biólogo e professor da Universidade Federal (Ufrgs) Paulo Brack chamou atenção para o volume de água utilizada no processo de produção da celulose: 288 milhões de litros por dia, volume maior do que o consumo diário de toda a população de Porto Alegre. Desse total captado, a fábrica devolve ao Guaíba 242 milhões de litros por dia.

    Segundo Brack, que também representa o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá), no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS, muitos compostos químicos são persistentes, como organoclorados utilizados para o branqueamento da celulose. Brack lembrou que há uma cadeia alimentar que depende da água do Guaíba. “Temos 7.078 pescadores relacionados pelo Ministério da Pesca e isso dá mais que os 2.300 que a empresa garante que terão emprego após a conclusão da obra. Então esses efluentes podem comprometer não só a pesca como também todos os balneários da Costa Doce”, disse.

    A engenheira química Alda Maria de Oliveira, ex-analista ambiental da Fepam, disse que “é preocupante” a questão desses poluentes. Os próprios números da empresa indicam a emissão de diversos compostos na água.

    Alda alertou para os impactos acumulados por mais de 50 anos de funcionamento de fábricas de celulose sobre o rio. De acordo com a engenheira, os impactos atingem tanto a qualidade da água quanto os peixes consumidos pela população. “Os efeitos recaem sobre o fluxo ambiental e também sobre a vida humana”, destacou.

    O professor Brack e a engenheira química Alda Oliveira.

    Arnildo Werá, coordenador estadual da Comissão Guarani Yvyrupa, destacou que a Convenção 169 da OIT garante o direito à consulta livre, prévia e informada sempre que medidas ou empreendimentos afetarem os povos indígenas. Esse direito não é favor, nem burocracia: “É uma obrigação do Estado e das empresas”.

    A liderança denunciou que as comunidades Guarani não foram devidamente consultadas sobre os impactos da instalação da CMPC em seus territórios tradicionais. “Ignorar esse processo é violar direitos internacionais, a Constituição brasileira e a autodeterminação dos povos indígenas. Não existe desenvolvimento quando há destruição de territórios, silenciamento de comunidades e violação de direitos. O povo Guarani exige respeito, escuta e participação nas decisões que afetam seu presente e seu futuro. Respeitar a Convenção 169 é respeitar os povos originários”, destacou Werá.

    Da organização Amigas da Terra, Eduardo Raguse afirmou que a empresa já descumpre um dos itens de adequação da licença de operação relacionado ao controle de odores que causam “desconforto olfativo” à população. Raguse relatou impactos sobre a população local, incluindo registros de mal-estar entre alunos e professores da Colégio Estadual Augusto Meyer. Também alertou para o que classificou como “alto risco de acidentes”, mencionando avaliações realizadas pela Fepam nas operações da CMPC.

    O Doutor em Ciências na área de Ecologia de Paisagem e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rualdo Menegat, alertou sobre os impactos socioambientais. “Será necessária uma estrada de 1.100 km de caminhões que trarão insumos químicos por ano. Além disso, haverá também trânsito de 273 mil caminhões por ano junto com os que trarão os lenhos, cerca de 6 mil ônibus, 29 mil carros, 29 mil motocicletas, ou seja, serão consumidos milhões de litros de diesel com as devidas emissões de CO2”, comparou Menegat.

    A deputada Sofia Cavedon lamentou que seja classificado de “grenalização” o necessário debate ambiental e criticou uma possível desqualificação de ambientalistas e pesquisadores que alertam para os impactos do empreendimento. Segundo Sofia, “os ambientalistas alertam sobre o que pode acontecer e a gente vê vários qualificativos agressivos usados contra eles. Como se fossemos eco chatos e contra o desenvolvimento, como se estes alertas não tivessem valor científico. Essas pessoas estudam pensam sobre o assunto e quem defende desenvolvimento econômico precisa considerar de forma técnica o impacto ambiental. O Guaíba não pode ser ainda mais poluído, ponto final. O Guaíba já está contaminado, e estamos falando de uma quantidade de água equivalente ao consumo de toda Porto Alegre que será utilizada pela CMPC. Porto Alegre também precisa ser consultada sobre esta nova planta, porque sofrerá os impactos”, argumentou.

    Sofia também criticou o modelo de expansão baseado no cultivo de eucalipto. Segundo ela, “não se trata de preservação, mas de uma monocultura predatória”.

  • Audiência debate impactos da nova indústria de celulose da CMPC

    Audiência debate impactos da nova indústria de celulose da CMPC

    Nesta quarta-feira, dia 20, será discutido o novo empreendimento de celulose da CMPC e os impactos socioambientais envolvidos no processo de licenciamento.

    Mais do que acompanhar, é hora de ocupar esses espaços, fazer perguntas, escutar diferentes perspectivas e defender o direito da população de participar das decisões sobre o futuro do estado.

    A Audiência Pública acontece às 10h30, na sala Maurício Cardoso, 4º andar no Parlamento gaúcho.
    Também com transmissão online. A organização é do Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC, e foi proposta pelos deputados Leonel Radde (PT), Miguel Rossetto (PT) e Marcus Vinicius (PP).

  • Comitê alerta parlamentares sobre riscos ambientais e sanitários com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Comitê alerta parlamentares sobre riscos ambientais e sanitários com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Um comitê técnico formado por entidades socioambientais e professores universitários encaminhou carta aos parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul manifestando preocupação com o projeto de uma nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro, atualmente em processo de licenciamento ambiental. O documento aponta falhas no Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), considerado incompleto e inconsistente, além de denunciar pressões políticas e econômicas que estariam acelerando a análise sem o devido rigor técnico. O grupo ressalta que não se opõe à produção de celulose em si, mas critica o modelo proposto, destacando seus potenciais impactos socioambientais e a falta de debate público qualificado.

    Entre os principais riscos apontados estão o elevado consumo de água e o grande volume de efluentes que seriam lançados no Guaíba, podendo comprometer o abastecimento da Região Metropolitana de Porto Alegre, além de afetar a biodiversidade e comunidades locais. O comitê também alerta para possíveis impactos à saúde humana decorrentes da liberação de substâncias tóxicas persistentes, falhas na modelagem ambiental apresentada e ausência de consulta adequada a povos indígenas e comunidades pesqueiras, em desacordo com normas nacionais e internacionais. Além disso, critica-se a escolha da área do empreendimento, que abriga ecossistemas sensíveis e espécies ameaçadas.

    O documento conclui solicitando que os parlamentares intervenham para garantir transparência, independência e rigor técnico no processo de licenciamento, com realização de audiências públicas e ampla participação social. Segundo o grupo, o empreendimento tem potencial de causar impactos regionais significativos, agravando problemas ambientais e climáticos já existentes, o que exige uma análise mais criteriosa antes de qualquer aprovação.

    Liminar do CNMP desbloqueia instalação do “Projeto Natureza” em Barra do Ribeiro

    Na última sexta-feira, 24 de abril, o conselheiro do CNMP, Edvaldo Nilo, suspendeu liminarmente recomendações do MPF/RS que travavam o “Projeto Natureza” – a nova fábrica de celulose de R$ 27 bilhões em Barra do Ribeiro (RS), atendendo a pedido dos deputados Marcel Van Hattem e Felipe Camozzato. A decisão aponta que o MPF conferiu caráter vinculante indevido às recomendações e determinou que a Corregedoria Nacional investigue os procuradores, destacando o risco de paralisação do empreendimento. Saiba mais detalhes no portal de notícias do CNMP.

    Leia a íntegra da carta com observações dos impactos do projeto da CMPC em Barra do Ribeiro

    Exmas./Exmos. Senhoras e Senhores Parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado:

    O “Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC Celulose”, que firma o presente documento, amparado pela Constituição Federal, em seu artigo 225, relativamente à obrigatoriedade da defesa e preservação do meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida para as presentes e futuras gerações, dever este também imposto ao Poder Público e à coletividade, vem perante Vossas Excelências manifestar-se sobre o megaempreendimento de produção de celulose da empresa CMPC, previsto para o município de Barra do Ribeiro, em processo de licenciamento ambiental na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luís Roessler (FEPAM).

    O rito do licenciamento deste projeto na FEPAM, infelizmente, vem sendo atropelado, desde a aceitação, pelo órgão licenciador, por meio de um incompleto e inconsistente Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), de parte da empresa requerente. Tal situação, já alertada por diversas entidades, inclusive ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, vem acompanhado de intensa pressão econômica e política, acenando investimentos de valores extraordinários que tentam subjugar os direitos socioambientais garantidos pela Constituição Federal.

    O Governo do Estado e outros setores interessados têm defendido, com muita ênfase, a viabilidade deste megaempreendimento, mesmo sem a devida conclusão das análises técnicas qualificadas no rito de um efetivo e independente licenciamento ambiental.

    Lamentavelmente, desde os órgãos da administração pública estadual até os grandes meios de comunicação, pouco ou quase nada de espaços são destinados aos questionamentos necessários que vêm sendo realizados por técnicos de dentro e fora deste Comitê, incluindo pesquisadores e dezenas de organizações da sociedade civil, inclusive públicas, em relação às consequências socioambientais do referido projeto.

    Este documento não busca se contrapor ao produto celulose, dada a sua importância para a sociedade, desde que dentro de padrões de uso sustentável, o que não é o caso em sociedades de alto consumo deste produto, inclusive com branqueamento questionável, agravado pela ausência efetiva de políticas que viabilizem a reciclagem de papel, papelão e produtos similares. Há que se considerar, também, que 90% dos 3 milhões de toneladas de celulose a serem produzidas, por ano, serão destinadas à China (a 19 mil km) e a outros países igualmente distantes que a utilizarão para transformar em produtos agregados como papel e outros derivados. Diante do enorme trajeto de transporte, o que amplifica a crise climática e ambiental, cujas consequências vivemos de forma tão dramática no nosso estado.

    Consideramos que os agentes públicos possuem o dever de debater todos os impactos ambientais e sociais do projeto, exigindo do órgão ambiental competente a necessária isenção, impessoalidade e observância da legalidade estrita no caso. Lamentavelmente, temos assistido a atuação dos órgãos estaduais ligados à proteção ambiental, em diversas situações, dando a entender apoio ao referido projeto. Desta forma, o órgão ambiental estaria exonerando-se do dever institucional de acompanhar, fiscalizar e exigir estudos completos e aprofundados sobre os impactos deste megaempreendimento que comprometeria gravemente o principal manancial para abastecimento de água da Região Metropolitana de Porto Alegre, com consequências inegáveis e de grande vulto para a vida humana, a fauna e flora de todo o entorno.

    A área prevista para o empreendimento, na localidade de Barba Negra, apresenta elevada biodiversidade, constituindo-se como Formações Pioneiras, protegidas pela Lei da Mata Atlântica (Lei Federal n. 11.428/2006), incluindo zonas classificadas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) como prioritárias para conservação, com espécies ameaçadas e endêmicas — fatores que motivaram a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) pela própria empresa (Portaria SEMA n. 48 de 28/09/2010). Tais elementos foram ignorados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), e a tentativa da CMPC de desafetar parte da Unidade de Conservação, para viabilizar o empreendimento, é ambientalmente e juridicamente questionável, sobretudo diante da presença de espécies ameaçadas em raros ambientes de restinga na região do Guaíba.

    Ademais, o projeto apresenta outras inconsistências graves na definição de sua localização, uma vez que não houve análise abrangente de alternativas locacionais, desconsiderando aspectos territoriais sensíveis, como a elevada presença de aldeias Mbyá Guarani no município de Barra do Ribeiro. Soma-se a isso o encaminhamento inadequado da consulta aos povos indígenas, em desacordo com a Convenção no 169 da OIT e com a legislação nacional, evidenciado por um processo inicial marcado pela ausência de respeito ao direito à Consulta Prévia, Livre e Informada aos Povos Indígenas pertencentes às etnias Mbyá Guarani e Kaingang. Verificam-se, ainda, indícios de uma relação baseada em promessas, o que pode configurar pressão ou assédio às comunidades indígenas.

    Nesse contexto, impõe-se a atuação rigorosa da FUNAI e da FEPAM para assegurar que o processo de consulta observe integralmente os direitos dos povos indígenas. É impositivo que os parlamentares e a sociedade gaúcha saibam que o empreendimento projeta extraordinários valores, tanto de consumo de água (288 milhões de litros/dia) como de lançamento de efluentes líquidos (242 milhões de litros/dia). Somado ao volume atualmente despejado pela unidade já existente da CMPC no município de Guaíba, as águas do Guaíba passariam a receber cerca de 396,4 milhões de litros de efluentes por dia, carga equivalente ao volume de esgotos gerados por uma população estimada em cerca de 2 milhões de habitantes, portanto, superior à população do Município de Porto Alegre. Neste cenário, em 10 anos, a quantidade de efluentes lançados seria equivalente a todo o volume do corpo de água Guaíba!

    Sob o aspecto qualitativo, é importante destacar que o projeto anuncia utilizar o processo Kraft com branqueamento ECF (livre de cloro elementar), técnica que, embora reduza parcialmente impactos, não elimina a geração de compostos organoclorados, especialmente AOX (compostos orgânicos halogênios adsorvíveis), entre os quais se incluem dioxinas e furanos, reconhecidos como Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), de elevada toxicidade e longa meia‑vida ambiental, regulados pela Convenção de Estocolmo, da qual o Brasil é signatário.

    Considerando que a indústria de celulose figura entre as mais poluentes em escala global, cumpre destacar que o lançamento conjunto de efluentes — provenientes da unidade projetada e somados aos da planta já em operação em Guaíba — configura uma situação inédita no cenário internacional, na qual um único corpo hídrico interior passaria a receber descargas de duas fábricas de grande porte, com elevada carga de contaminantes persistentes, constituindo-se no maior polo de poluição das indústrias de celulose do mundo. Enfatizam-se, com isso tudo, os riscos de longo prazo decorrentes da liberação de substâncias persistentes e bioacumulativas, já citadas, tais como dioxinas, furanos e demais compostos organoclorados (AOX) e trihalometanos, associadas a: distúrbios endócrinos e reprodutivos; infertilidade e malformações fetais; aumento do risco de diferentes tipos de câncer, gerando impactos sérios à saúde humana.

    Existe forte probabilidade do efluente previsto para ser lançado no Guaíba, a 4 km da margem de Barra do Ribeiro e a 3 km da margem de Belém Novo (Porto Alegre), afetar a captação de duas estações de tratamento de água do DMAE. No RIMA, além de não ser citada a liberação de dioxinas e furanos, poluentes cancerígenos, persistentes e comuns nestes tipos de indústrias, derivados do uso de cloro no branqueamento da celulose, a modelagem da dispersão dos poluentes apresenta falhas elementares e não considera adequadamente a complexidade da hidrodinâmica do Guaíba, não só para o abastecimento da população como a pesca e a balneabilidade, inclusive na Laguna dos Patos. Apesar do emissário de efluentes da nova planta da CMPC ficar ao sul desta captação, o Guaíba apresenta inversão do fluxo nortesul, quando os ventos do sul são fortes, fato que não foi considerado adequadamente no Estudo apresentado pela empresa.

    Impõe-se ao Estado brasileiro, na condição de signatário, a adoção das melhores técnicas disponíveis e a implementação de medidas destinadas à redução contínua e, quando possível, eliminação dessas substâncias, especialmente em atividades reconhecidamente emissoras, como a indústria de celulose.

    Um aspecto crítico que merece ser incorporado diz respeito ao comportamento de contaminantes tóxicos, persistentes e bioacumulativos, como no caso de AOX, dioxinas e furanos, já citados. Esses compostos tendem a se concentrar majoritariamente nos sedimentos, compartimento ambiental que não foi devidamente considerado na modelagem utilizada no EIA. Trata-se de uma lacuna metodológica extremamente relevante, especialmente em uma análise de impacto ambiental dessa natureza, pois a dinâmica dos sedimentos constitui uma via fundamental de exposição e contaminação de longo prazo. Ainda que os efeitos possam não ser imediatamente perceptíveis, é plausível que se manifestem ao longo do tempo, à medida que esses poluentes se acumulam e entram na cadeia trófica. Além disso, eventos como cheias ou perturbações hidrodinâmicas, em especial as enormes dragagens previstas neste projeto, podem provocar a ressuspensão desses contaminantes na coluna d’água, reintroduzindo-os no sistema e ampliando seus riscos ambientais e sanitários.

    Da mesma forma, prevê-se a contaminação ao longo da cadeia alimentar, inclusive com potencial de bioacumulação no pescado, afetando de forma dramática o sustento de mais de 7 mil famílias que vivem da pesca artesanal e que dependem da qualidade da água do Guaíba e da Laguna dos Patos. Alertamos que o número de pescadores artesanais representa mais do que três vezes os 1400 empregos declarados pela empresa após sua construção.

    Além de todos os elementos aqui citados, acrescente-se o imenso impacto ambiental também pela emissão atmosférica com poluentes tóxicos – gases de enxofre, nitrogênio, particulados e Gases de Efeito Estufa (GEE), entre outros. No caso dos GEE, o Inventário de Emissões presente no EIA do projeto da CMPC evidencia aspectos altamente preocupantes e contraditórios: o empreendimento poderá emitir, anualmente, mais de 1,5 milhão de tCO₂ e (toneladas de gás carbônico equivalente), decorrentes da queima de combustível fóssil, somados a volumosas emissões biogênicas que, embora tratadas como “neutras”, incluem gases de alto potencial de aquecimento da atmosfera, como CH₄ e N₂ O. Há que se considerar que, além das chaminés da indústria, estes gases também serão liberados pela circulação anual de milhares de veículos, terrestres e aquáticos, no transporte de madeira, celulose, materiais químicos, entre outros, contrariando todas as iniciativas mundiais, em curso, para diminuir a emergência climática e ambiental. Portanto, destaca-se a forte dependência de combustíveis fósseis, responsáveis pela maior parte das emissões diretas, o que contradiz a alegação de uso das “melhores tecnologias disponíveis”. Além disso, o estudo desconsidera as emissões de gases decorrentes da construção da enorme infraestrutura industrial e da mudança de uso do solo e exclui elementos relevantes, como as monoculturas de eucalipto, com prejuízos principalmente sobre o bioma Pampa, resultando em enorme subestimação da totalidade dos impactos. Em conjunto, esses elementos indicam uma carga emissora significativa e fragilidades metodológicas que comprometem a real avaliação dos impactos climáticos do projeto.

    Sendo assim, conclamamos a Vossas Excelências à responsabilidade de interromper o atropelo deste processo, garantindo o direito ao debate técnico, esclarecido e aprofundado devido ao enorme potencial de poluição e degradação ambiental do projeto. Ou seja, tal empreendimento apresenta uma dimensão de impacto regional, com suas consequências altamente prejudiciais no Guaíba, Laguna dos Patos e Região Metropolitana, podendo afetar milhões de pessoas.

    Sob os princípios constitucionais que regem a Administração Pública, requeremos medidas objetivas para que a SEMA/RS e a FEPAM/RS retomem os critérios técnicos, autonomia, independência e transparência no processo de licenciamento ambiental, garantindo também a realização de Audiências Públicas em Porto Alegre e demais municípios da região afetada.

    Porto Alegre, 27 de abril de 2026.

    Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC Celulose, composto pelas entidades: Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente-RS, Amigas da Terra Brasil, Associação de Mães e Pais pela Democracia-AMPD, Associação dos Servidores da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul – ASSEMA/RS, Associação dos Técnicos de Nível Superior do Município de Porto Alegre – ASTEC; Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN; Associação Sócio Ambientalista – IGRE; Casca – Instituto Socioambiental; Instituto Ecoa; Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá; Instituto MIRA-SERRA; Medicina em Alerta; Movimento de Justiça e Direitos Humanos- MJDH; Ser Ação Ativismo Ambiental. (contato: comitetec.sociamb.cmpc@gmail.com)

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  • Bióloga aponta falhas técnicas no estudo de impacto ambiental da nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Bióloga aponta falhas técnicas no estudo de impacto ambiental da nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    Com 32 anos de atuação na indústria – grande parte dedicada ao estudo e monitoramento do tratamento de efluentes –, a bióloga Cátia Regina Duarte Machado é categórica ao analisar o projeto da nova fábrica de celulose da CMPC, em Barra do Ribeiro: “A contribuição de poluentes no Guaíba com os efluentes da nova planta não está devidamente avaliada”. Ou seja, não se sabe o quanto de poluição o Guaíba pode sofrer com o novo empreendimento.

    Após examinar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela empresa no processo de licenciamento, Cátia aponta uma série de falhas técnicas. Ela é uma das signatárias de um documento elaborado por pesquisadores e professores de diversas universidades, que cobra mais transparência, aprofundamento dos estudos e a realização de novas audiências públicas antes da aprovação do projeto pela  Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM).

    Falhas no estudo ambiental levantam alertas

    Para a bióloga, a aplicação do princípio da precaução, previsto na Constituição, é indispensável diante da fragilidade do Guaíba, um sistema hídrico essencial tanto para a população quanto para o equilíbrio ecológico da região.

    “O Guaíba recebe contribuições de diversos afluentes. A proximidade entre duas grandes fábricas de celulose – a atual (na cidade de Guaíba) e a nova unidade (em Barra do Ribeiro) – não considera, no estudo de impacto ambiental, o efeito cumulativo e a complexação de poluentes.” Complexação significa que os poluentes tendem a reagir entre si, quimicamente, formando novos compostos ainda mais tóxicos.

    Bióloga Cátia Machado

    Cátia contesta um dos principais argumentos da empresa, de que a água devolvida ao Guaíba, após tratamento, seria mais limpa do que a captada. “Isso é uma falácia. Por mais eficiente que seja, o tratamento reduz concentrações, mas não elimina totalmente os poluentes. Sempre há impacto, e ele é cumulativo.”

    Ela explica que, embora o Guaíba possua capacidade natural de autodepuração, todo corpo hídrico tem um limite, chamado de “capacidade de suporte”. Quando esse limite é ultrapassado, não há processos que consigam reduzir os contaminantes.

    A bióloga faz a ressalva de que não é correto afirmar, como a CMPC diz, que serão usadas “as melhores tecnologias disponíveis”. O processo de branqueamento no projeto ainda utiliza cloro, uma escolha associada ao menor custo, mas com impactos ambientais significativos. “Existem alternativas amplamente utilizadas, como ozônio e peróxido de hidrogênio, muito menos agressivas”, esclarece.

    Poluentes persistentes e riscos invisíveis

    Ao abordar os riscos, ela destaca que o sistema de tratamento biológico previsto, baseado em iodo ativado, não é capaz de remover substâncias tóxicas persistentes como dioxinas, pois esses compostos são recalcitrantes e não são degradados por processos biológicos. Permanecem no ambiente e podem até ter sua toxicidade potencializada.

    Segundo Cátia, a presença de cloro está diretamente relacionada à formação de dioxinas e outros organoclorados, substâncias para as quais não existe nível seguro em ecossistemas aquáticos.

    “Na natureza, tudo é cíclico. Mas a ação humana introduz substâncias sintéticas que não entram nesses ciclos. Em muitos casos, não há organismos ou processos capazes de degradá-las.” Para a bióloga, a nova planta industrial, uma megaindústria entre as maiores do mundo, ampliará absurdamente a carga poluente no Guaíba.

    O estudo de impacto ambiental apresentado pela empresa analisa parâmetros de forma isolada, sem considerar suas interações e efeitos combinados. A aprovação do estudo pela FEPAM surpreendeu a comunidade científica.

    “Foi inesperado. O EIA-RIMA não prevê testes de toxicidade aguda nem crônica no monitoramento dos efluentes, o que é uma falha grave. Em vez disso, o estudo baseia-se em modelagem matemática, que simula a dispersão dos poluentes no Guaíba por meio de mapas. As imagens mostram áreas com diferentes níveis de concentração, mas são interpretadas como ausência de impacto, o que não é devidamente explicado no relatório”, aponta a bióloga.  

    Volume de efluentes amplia preocupação

    O volume previsto de lançamento de efluentes também preocupa. Serão 240 mil metros cúbicos por dia, volume superior ao esgoto doméstico tratado por todas as estações de tratamento de Porto Alegre. “Ao contrário do que afirmam, isso tende a intensificar os impactos por meio da complexação de poluentes.”

    Cátia reforça que não há tratamento biológico capaz de eliminar completamente compostos como dioxinas e organoclorados, muitos deles reconhecidamente cancerígenos. “Essa carga poluente pode extrapolar os limites do sistema. Isso poderia ser mitigado com tecnologias mais modernas, estudos mais robustos e um debate público qualificado, além da reavaliação da localização da planta.”

    Os especialistas cobram audiências públicas em todos os 14 municípios potencialmente afetados. Cátia também aponta outras lacunas importantes no EIA-RIMA: “Não há dados sobre metais pesados como cádmio, zinco, mercúrio e cobre, cuja análise é exigida por legislação por ser fundamental para avaliar impactos ambientais.”

    A bióloga chama especial atenção para o perigo de contaminação na região de Barra do Ribeiro, que hoje possui água classificada como Classe 1 pela resolução do CONAMA — a melhor qualidade possível. Além disso, o Guaíba apresenta fluxos e hidrodinâmica complexos, com variações sazonais de vazão, inversões de fluxo e mudanças de profundidade, fatores que precisam ser considerados em qualquer avaliação.

    “Os impactos desse megaempreendimento são complexos e imprevisíveis, principalmente quando consideramos os efeitos climáticos severos que temos vivenciado no nosso estado”, completa Cátia.

  • Estado vai voltar a acolher                   animais silvestres no Zoo

    Estado vai voltar a acolher animais silvestres no Zoo

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) decidiu retomar o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e vai ocupar de forma provisória um local no Parque Zoológico, em Sapucaia do Sul.

    Ainda não foi decidido quem vai trabalhar lá, mas não serão servidores do Zoo, como era antigamente.

    O CETAS havia sido desativado em 2018, após a extinção da Fundação Zoobotânica e das tentativas frustradas de concessão do Zoo para a iniciativa privada. Agora, está recebendo melhorias na infraestrutura para voltar a funcionar, sem um prazo determinado.

    Desde então, todo o serviço de acolhimento e tratamento dos animais silvestres apreendidos em ações de fiscalização, vítimas de acidentes ou entregues voluntariamente pela população, ficou concentrado em um imóvel improvisado do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na esquina das ruas Baronesa do Gravataí e Miguel Teixeira, no bairro Cidade Baixa, na Capital.

    Em 2024, a enchente invadiu aquele imóvel do Ibama, um local pequeno para o manejo e abrigo dos animais silvestres, inadequado para manter aquelas atividades, segundo biólogos e veterinários.

    O serviço de acolhimento e uma parte dos mais de cem animais foram deslocados para a sede do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), órgão do Ministério da Agricultura e Pecuária, que fica ao lado do Jardim Botânico, um espaço totalmente precário.

    A situação se agravou mais com a descoberta pela Polícia Federal, naquele ano de 2024, de um esquema de destinação ilegal de animais para dez criadouros de fauna e criadores amadoristas de pássaros silvestres, com o fim de serem vendidos.

    De um total de seis pessoas indiciadas pela PF, dois são servidores do Ibama regional, e foram afastados do trabalho temporariamente. Entre os animais, havia uma harpia, ou gavião-real, a maior ave de rapina das Américas, espécie ameaçada de extinção.

    MP-RS entra em ação e cobra soluções

    Em maio do ano passado, o Ministério Público gaúcho propôs uma Ação Civil Pública (ACP) para cobrar do governo estadual um plano com estratégias de acolhimento e tratamento dos animais até que possam ser reintroduzidos ao ambiente natural.

    A promotora de Justiça Annelise Steigleder, da Promotoria de Meio Ambiente de Porto Alegre, que assina a ACP, diz que os animais silvestres apreendidos em ações de fiscalização da polícia militar ou da SEMA não podem correr o risco de ser mantidos com os próprios infratores.

    Ainda em 2025, a SEMA criou o programa Guardiões da Fauna, para que particulares pudessem receber os animais fruto das apreensões da polícia ambiental, mas foi impugnado judicialmente pela ausência de consulta pública e porque estava em desconformidade com a legislação federal e estadual, além de conter “graves falhas jurídicas e técnicas apontadas em análises especializadas e representações de entidades ambientais”, diz a decisão judicial.

    Dentre as fragilidades apontadas, “causam especial apreensão a ausência de lista prévia de quais animais silvestres podem ser objeto desse tipo de destinação, a falta de exigência de responsável técnico pelo mantenedouro, a ausência de garantias mínimas para o manejo adequado dos animais sob guarda, e o sistema de fiscalização insuficiente, favorecendo riscos de maus-tratos, tráfico, fraudes e ‘petização’ da fauna”, aponta a promotora de Justiça Annelise Steigleder.

    Entre os anos de 2018 e 2020, discutiu-se a possibilidade de uma parceria entre SEMA e Ibama para que o órgão federal transferisse o CETAS sob sua responsabilidade para uma área anexa ao Jardim Botânico, onde funcionavam os laboratórios da Fepam. Foram feitas medições, avaliações e, em dezembro de 2020, foi assinado um Termo de Cessão de Uso da área de 1.300m². Mas o Ibama desistiu do local.

    Agora, uma nova parceria está sendo formatada entre os dois órgãos públicos para instalar e administrar um CETAS na Reserva Florestal Padre Balduíno Rambo, ao lado do Zoo, em Sapucaia do Sul.

    Essa reserva de 620 hectares, que faz homenagem ao religioso e botânico gaúcho, autor do clássico “A fisionomia do Rio Grande do Sul” (1942), é uma das áreas verdes mais cobiçadas da região metropolitana. Uma parte da reserva chega às margens do Rio dos Sinos e protege a mata ciliar por mais de dez quilômetros de extensão.

  • Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    A atual fábrica da CMPC – Celulose Riograndense, localizada no município de Guaíba, tem capacidade para produzir 2,4 milhões de toneladas de celulose ao ano. Já uma nova planta, que a multinacional pretende instalar no município vizinho de Barra do Ribeiro, vai chegar aos 3 milhões de toneladas por ano de celulose.

    Com um investimento anunciado de R$ 25 bilhões, o projeto aguarda a licença ambiental. Se a fábrica for construída, será a maior produtora individual de celulose do mundo, ultrapassando a brasileira Suzano, de Ribas do Rio Pardo, no Mato Grosso do Sul (2,55 milhões ton/ano).

    Juntas, as duas unidades da CMPC vão duplicar a carga de efluentes altamente tóxicos nas águas do Guaíba, segundo a engenheira química e ambientalista Alda Maria Corrêa.

    “Este projeto está na contramão da história, da preservação da vida humana e da natureza”, diz ela, na condição de integrante de um grupo de pesquisadores e professores que questionam o novo empreendimento.

    Com uma carreira na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), pela qual se aposentou, Alda Maria Corrêa tem experiência em Licenciamento Ambiental Industrial, em especial em efluentes líquidos industriais, e em cadastramento estadual de agrotóxicos e remediação de área contaminada por agrotóxicos, componentes e afins.

    -“É um tema bem delicado e que deve ser debatido exaustivamente com a sociedade, através de audiências públicas, como prevê a legislação, em todas as cidades afetadas direta ou indiretamente, sobre os aspectos ambientais e sociais. Acho fundamental pensar em alternativas locacionais”, diz ela, com a autoridade de quem já coordenou a Câmara Técnica de Controle e Qualidade Ambiental, do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema/RS).

    Alda Maria Corrêa é especialista em licenciamentos industriais. Foto/Reprodução

    JÁ – A localização dessa indústria, na Fazenda Barba Negra, às margens do Guaíba, é inadequada?

    Alda Maria – É extremamente preocupante e inaceitável a localização proposta de uma fábrica de tamanha complexidade, com lançamento de compostos tóxicos e persistentes num rio que é um corpo hídrico raso, com dinâmica lenta, que favorece a deposição de sedimentos e menor capacidade de diluição e dispersão. Com o agravante dos efeitos cumulativos dos contaminantes emitidos pela fábrica em Guaíba.

    JÁ – O que é mais grave?

    Alda Maria – A distância do emissário de poluentes da nova fábrica estaria a 3,5 km das praias de Belém Novo, em Porto Alegre, e a menos de 7 km dos pontos de captação de água do DMAE, que geram grande parte do abastecimento público de Porto Alegre. Pescadores artesanais, povos indígenas e comunidades tradicionais poderão ser prejudicados. Num momento mundial de crise hídrica, um empreendimento que consome o recurso água de maneira ostensiva, desde a monocultura de eucalipto até as etapas de processo, sem previsão de qualquer reciclo de água, está na contramão da história e da preservação da vida humana e da natureza.

    JÁ – Que produtos químicos tóxicos são utilizados na indústria de celulose?

    Alda Maria – É complicado de entender porque são termos bem técnicos. E não tem como evitá-los. Há geração de compostos organoclorados a partir do Cloro Elementar ou Dióxido de Cloro, usado no processo de branqueamento da polpa da celulose. Os mais tóxicos existentes são as Dioxinas (dibenzo-p – dioxinas policloradas) e os Furanos (dibenzofuranos). São os chamados POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes), da Convenção de Estocolmo. E as fábricas de celulose e papel são as principais fontes de emissão destes compostos químicos tóxicos em receptores hídricos, neste caso, no Rio Guaíba.

    JÁ – E são permitidos mesmo assim?

    Alda Maria – O Licenciamento Ambiental da unidade de Guaíba da CMPC limita nos efluentes, além de outros parâmetros, a emissão de Compostos Orgânicos Halogenados (AOX), no caso, como clorofórmio, clorofenóis e Dioxinas e Furanos, de menor ou igual a 0,1 kg (100 gramas) por tonelada de celulose, o que permite a emissão de até 657 kg AOX por dia. A nova unidade pretende lançar 720kg AOX/dia. Somando as duas, seriam 1.377kg AOX lançados no Guaíba diariamente.

    JÁ – E que riscos representam à saúde dos animais e seres humanos?

    Alda Maria – Essa quantidade de substâncias tóxicas é considerada de alta carga poluidora para um corpo receptor como o Guaíba, de baixa vazão, e pouca capacidade de dispersão. Dioxinas e Furanos são carcinogênicos, causadores de danos ao sistema reprodutivo e ao neurodesenvolvimento, acumulam-se nos tecidos gordurosos dos animais, especialmente peixes, pássaros, comprometendo toda a cadeia trófica e fragilizando todo sistema da fauna, com longo alcance. Em peixes, causam alterações endócrinas, redução de fertilidade, deformidades embrionárias, alteração do desenvolvimento larval. Em aves piscívoras, causam casca de ovos mais finas, redução reprodutiva, e mortalidade embrionária.

    JÁ – São feitos testes periódicos em amostras com animais?

    Alda Maria – O biomonitoramento realizado no Rio Guaíba em moluscos bivalves, em área de influência do lançamento da CMPC Guaíba, apontou a presença de Dioxinas e Furanos na concentração de 4,926 picograma por grama expressos em Toxicidade Equivalente (TEQ). No monitoramento dos efluentes da CMPC, no segundo semestre de 2025, foi relatada a emissão de 3,17 picograma por litro de Dioxinas e Furanos, expressos em TEQ. Também nos resíduos sólidos-lodo o monitoramento apontou a concentração de 1.596,16 pg de Dioxinas e Furanos por kg de lodo, expresso em TEQ.

    JÁ – Que medida é essa picograma?

    Alda Maria – Esses contaminantes são tão tóxicos que devem ser medidos em níveis de detecção muito pequenos, como em picogramas (um trilionésimo de grama).

    JÁ – E os efeitos no ser humano?

    Alda Maria – A contaminação pode ser a longo prazo. As formas de contaminação são por ingestão de peixes e água. Essa situação é extremamente preocupante quanto ao consumo de água e de peixes para as populações atingidas, inclusive Porto Alegre e Viamão.

    Isso tudo sem falar nos outros aspectos muito importantes, como emissões atmosféricas, gerenciamento de resíduos sólidos, riscos de acidentes, vazamentos, logística, etc.

    JÁ – O consumo de água dessas indústrias é motivo de preocupação?

    Alda Maria – O consumo de água e a vazão de lançamento de efluentes da atual CMPC é de 154.400 m³/dia, equivalente ao consumo de água de uma população de 770 mil habitantes (mais que a metade da população de Porto Alegre). A vazão dos efluentes dessa nova unidade seria equivalente ao uso da água de toda a população de Porto Alegre.

    JÁ – Qual a saída? Proibir a instalação dessas indústrias?

    Alda Maria – Fábricas europeias novas já adotam o sistema de branqueamento da polpa totalmente livre de Cloro (TCF), com uso de Ozônio e Peróxido de Hidrogênio, a ‘Melhor Tecnologia Disponível’, sem a geração de compostos AOX indesejáveis. Essa tecnologia não está prevista na nova fábrica. O processo produtivo proposto pela fábrica é o mesmo da já existente, com branqueamento com uso de Dióxido de Cloro.

    Historicamente, os impactos das ditas “papeleiras” são reconhecidos mundialmente, assim como houve o caso da empresa uruguaia que gerou crise diplomática com a Argentina por desaguar efluentes no Rio Uruguai, manancial que abastece os dois países. Aquela é considerada de grande porte, com emissão de 60.000 m³ por dia de efluentes líquidos, que em termos comparativos, significa quatro vezes menor que a vazão que seria emitida pela CMPC – Barra do Ribeiro.

    Essa comparação é para se ter ideia do impacto no Rio Guaíba causado pela mais que duplicação da emissão de poluentes tóxicos que, somados, atingiriam 1377kg AOX por dia, compostos tóxicos de difícil degradação.

    Já, especificamente, sobre os compostos mais tóxicos do mundo, as Dioxinas e Furanos, o Brasil é signatário da Convenção de Estocolmo que regula os Poluentes Orgânicos Persistentes. Com essa adesão, se compromete a adotar a ‘Melhor Tecnologia Disponível – BAT’ para fontes potencialmente geradoras desses compostos, com vistas “à redução progressiva até sua completa eliminação” (Resolução CONSEMA 355/2017, no Art. 13)

    Essa nova fábrica, além do imenso problema locacional, do alto consumo de água e lançamento de efluentes, não atende a adoção da BAT, com branqueamento de polpa totalmente livre de Cloro (TCF), entre outros fatores. Os riscos ambientais são altos e a população atingida precisa ser ouvida.

  • A história do homem-semente: meio século de vida dedicado à preservação ambiental

    A história do homem-semente: meio século de vida dedicado à preservação ambiental

    Ari Delmo Nilson completou no mês de março cinquenta anos de trabalho como técnico agrícola no Jardim Botânico de Porto Alegre. É um explorador nato. Percorre florestas, campos, banhados, dunas, rios e arroios, sobe em árvores variadas, escala precipícios e encostas atrás de sementes nativas, fundamentais à conservação da biodiversidade rio-grandense.

    Por Cleber Dioni Tentardini

    Poucos conhecem as matas e os campos no Rio Grande do Sul como o técnico agrícola Ari Delmo Nilson, desde o início deste ano o funcionário mais antigo do Jardim Botânico de Porto Alegre.

    Ele ingressou no JBPA em março de 1975 e, desde então, é uma referência na identificação, coleta e germinação de sementes arbóreas nativas, fundamentais à conservação da biodiversidade rio-grandense.

    É um explorador nato. Percorre florestas, campos, banhados, dunas, rios e arroios, sobe em árvores variadas, escala precipícios e encostas atrás de plantas, sempre buscando conhecer os ambientes e suas espécies.

    Na entrada do JBPA, com as palmeiras no fundo. Foto: Cleber Dioni

    Ajudou a plantar uma grande parte da coleção arbórea do JBPA. Está tudo registrado em caderninhos, que ele guarda com orgulho por ter seguido à risca os ensinamentos dos naturalistas com quem conviveu no trabalho desde o início da carreira.

    Naquele ano de 1975, os professores naturalistas gaúchos Albano Backes e José Willibaldo Thomé recém tinham assumido diretorias da Fundação Zoobotânica do RS (FZB), criada em 1972 para abrigar o Museu de Ciências Naturais, o Parque Zoológico e o Jardim Botânico.

    – Eu tinha 20 anos e, às vezes, realizava alguns serviços nos municípios do oeste catarinense, ali por Chapecó. Minha irmã, casada com o doutor Albano, avisou que ele estava precisando de ajudantes, peguei três ônibus para chegar aqui na Capital, na época essa viagem era uma epopeia, conta.

    Morou dois anos com o professor e sua irmã. Nessa época, o Jardim Botânico era uma área de campo com uma parte aberta, e uma portaria. Uma das primeiras tarefas de Ari foi cercar a área. Depois, montou uma base de trabalho junto ao antigo cactário. Começou cuidando dos cactos e, logo, ele e os colegas viram que seria fundamental plantar árvores nativas lá.

    Ari com colegas do JBPB na década de 80. É o terceiro (esq. p/ dir.)

    Um dos seus colegas por quase 50 anos, Julio Prado recorda que chegaram a produzir 40 mil mudas num ano, entre elas, várias espécies arbóreas ameaçadas de extinção, como o palmito, o pau-ferro e o pau-alazão. Prado, agora aposentado, é filho de seu Julião (falecido), um dos primeiros jardineiros do JBPA e quem organizou os jardins do Palácio Piratini.

    Mudas de cactos. Foto: Cleber Dioni

    Além do professor Albano Backes, gaúcho de Campina das Missões, e um dos responsáveis pela construção das bases da botânica e da ecologia vegetal do Sul do Brasil, Ari conheceu o primeiro diretor do JBPA da capital gaúcha, o irmão Teodoro Luis (Ramon de Peñafort Malagarriga y Heras), mas logo o naturalista e lassalista espanhol voltou à Europa para continuar os estudos.

    – Lembro que, certa vez, ao retornar a Porto Alegre, o irmão Teodoro elogiou o doutor Albano por ter mantido o JBPA como uma unidade de conservação da flora nativa e essa missão eu sempre carreguei comigo, ressalta.

    “Conservamos todas espécies de palmeiras ”

    Uma hora de caminhada em meio ao verde com Ari é um aprendizado e um exercício de memorização. Exemplares de angico, louro, maria preta, canjerana, guatambú, sassafrás, camboatá, canela, cabreúva, típicos da floresta do Alto Uruguai, todas essas plantas estão disponíveis, identificadas e catalogadas para pesquisadores e a população em geral que quiser conhecer.

    – Esse angico vermelho ou curupaí, eu trouxe sementes do Alto Uruguai, fiz a germinação, adaptação e plantio, em 1976. Plantamos palmeiras na entrada principal do Jardim Botânico, algumas sementes eu trouxe da minha terra natal, Marcelino Ramos, afirma.

    Todas as espécies de palmeiras nativas constam na área do JBPA, inclusive as que estão ameaçadas de extinção, como coqueiro, jerivá, butiá, buriti e geonoma.

    Ari estima que esse butiazeiro no JBPA tenha cerca de 260 anos. Foto: Cleber Dioni

    – É difícil precisar a idade de exemplares muito antigos, mas tem um butiazeiro aqui no JBPA com, no mínimo, 260 anos. Eu tive a oportunidade de conhecer os butiazais no Estado, locais com mais de 70 mil butiás, e conversar com as pessoas que mantém as coleções como jardins botânicos particulares. Isso é uma emoção muito grande, admite.

    Durante doze anos trabalhou também em uma estação meteorológica no Morro do Coco, em Viamão, de onde pegou muitas sementes. Instalou o viveiro no JBPA ainda na década de 1970 e começou a produzir e comercializar mudas. Mais tarde, foi instalado um Banco de Sementes.

    Pesquisadores renomados costumavam visitar o Estado, não sem antes passar no Jardim Botânico para conversar com os pesquisadores. E, frequentemente, Ari era convidado a acompanhá-los. Ele lembra do alemão Martin Grininger, especialista em líquens, cuja vinda se dava em função do Polo Petroquímico, em Triunfo. Cita outros pesquisadores como o botânico e ecólogo Roberto Klein, de Santa Catarina, o geógrafo e ambientalista Aziz Ab’Saber, de São Paulo.

    – Vinham em função de projetos de pesquisa. Eu estava na linha de frente, acompanhava como técnico local.

    No final dos anos 1980, Ari já era reconhecido como profundo conhecedor das sementes arbóreas nativas e por sua extrema habilidade de escalar árvores, dependurando-se em copas altíssimas com destreza inigualável, causando perplexidade e temor nos seus companheiros (leia depoimentos).

    Logo chamou a atenção do repórter Horst Knak, que o batizou como o homem-semente em uma matéria publicada no jornal Zero Hora, em 1986 (26/09): “Além de ser o maior entusiasta da coleta e preparo de sementes de árvores nativas do Rio Grande do Sul em perigo de extinção, Ari também é laçador de jacarés, especialmente do Banhado do Taim, para marcação”, escreveu Knak.

    Reprodução de página de ZH 26.09.1986 em matéria assinada pelo jornalista Horst Knac

    Ari deu dicas aos leitores daquele diário: “O primeiro passo é a escolha de árvores-matrizes, ou porta-sementes. Qualquer nativa precisa mais de dez anos para dar frutos e a primeira semente usada para multiplicação deve ser sempre do terceiro ano de frutificação. Depois de catado o fruto, ele precisa amadurecer para que a liberação da semente seja mais fácil. Com o Cachimbeiro, a semente se abre naturalmente, a Canafístula vai bem em solo ruim, tem crescimento rápido. A Canjerana possui frutos redondos que se assemelham a bolas de gude. É preciso esperar que murchem após colhidas para abri-las e semear imediatamente. A semente do Guapuruvu possui uma película dura que precisa ser lixada ou até mesmo fervida para apressar a germinação”.

    Ele percorreu o Estado acompanhado também do renomado escultor Xico Stockinger, que formou a mais completa coleção de cactáceas do RS.

    Recebeu convites para trabalhar em outros estados, mas, como ele diz:

    – Não tem jeito, casei com o Jardim Botânico, admite.

    Em Cambara do Sul. Foto: Natividad Fagundes

    Prestes a completar 70 anos, no final deste mês de julho, o pai do Luis Henrique e da Janaína, e avô da Ana Sofia, de sete anos, mantém uma rotina infalível.

    – Acordo às cinco da manhã e às sete horas já estou passando café aqui, o JBPA é um templo pra mim. Tudo o que eu faço é com vontade, emoção, muitas vezes é desgastante, e não tem problema, revela.

    Sua mulher, Maria de Fátima Oliveira, gaúcha de Santiago, desconfia que o Jardim Botânico é sua primeira casa.

    – Nesses 41 anos de casados, ele sempre foi assim, ligado no 220, está sempre pensando nas tarefas que têm por fazer, claro que sinto orgulho porque ele gosta do que faz e as pessoas reconhecem o seu trabalho, mas quando chega em casa elétrico e continua a mil, tenho que dar um tranco, brinca Fátima.

    Colegas destacam perícias do ‘mateiro’

    Com um exemplar de pitangão-amargo, em São Francisco de Paula. Foto: Martin Molz

    – A experiência que ele conquistou ao longo dos anos é muito singular e valiosa, porque abrange o trabalho com diversos grupos de plantas, a prática das atividades em campo, a habilidade com a germinação, o cultivo, e os manejos das diferentes espécies, a observação do desenvolvimento das plantas em cultivo, além de ter uma compreensão incrível da geografia e da flora do Rio Grande do Sul. Ele participou das coletas e plantios de parte significativa dos exemplares das coleções, presentes em todo o parque e também nas casas de vegetação. Um colega altamente dedicado e entusiasmado, enfim, tenho o privilégio de trabalhar com ele, que é a memória viva do Jardim Botânico de Porto Alegre, destacou a bióloga Natividad Fagundes, botânica no JBPA.

    Para o agrônomo Fernando Vargas, especialista em gestão e educação ambiental do JBPA, o conhecimento profundo e amplo torna o colega um técnico de valor inestimável.

    – Ari é uma fonte de inspiração pela sua paixão no trabalho. De tanto percorrer os rincões gaúchos em busca de plantas cada vez mais raras, conhece o interior do RS como ninguém. É uma referência para quem deseja encontrar exemplares de plantas em seu habitat original. E foram tantas viagens e coletas que descobriu até uma espécie nova de árvore (Callisthene inundata O.L.Bueno, A.D.Nilson & R.G.Magalh.) que é a consagração de qualquer profissional da Botânica.

    Escalando cerro em Caçapava do Sul. Fotos: Natividad Fagundes

    Na APABG, em Viamão, com Martin Molz

     

     

     

     

     

    Ao lado de um xaxim, em São Francisco de Paula.

     

    Arroio Cristalino, São Francisco de Paula. Fotos: Martin Molz

     

     

     

     

    O biólogo Martin Molz lembra de expedições realizadas com Ari antes mesmo de serem colegas no JBPA.

    – A paixão pelas plantas, sobretudo a compartilhada pelas árvores e pelas florestas, sempre nos manteve muito próximos. Ari tem um olho para todos os tipos de plantas, para o diferente, para o raro e o inusitado. Descobriu muitas espécies novas para a ciência. Consegue germinar praticamente todos os tipos de sementes em que coloca as mãos, dedos verdes! Apesar de trabalhar com plantas a vida toda, sabe muito sobre animais nativos e viu espécies que mesmo zoólogos nunca viram na natureza. Toda sua vida profissional foi dedicada em prol do Jardim Botânico, da conservação e da ciência. E segue, destaca o botânico.

    O técnico florestal Frederico Schäffer Petry, atualmente fiscal ambiental de Capela de Santana/RS, diz que o ex-colega é uma verdadeira enciclopédia viva da flora gaúcha e nacional.

    – Com suas peculiaridades e aquele jeito gaudério inconfundível de lidar com as pessoas, é o melhor colega que alguém pode ter, focado, solidário e orientador. E eu o provocava, chamando de meu estagiário, uma brincadeira, claro, com um mestre.

    Com Andréia Carneiro, durante coleta em Caçapava do Sul. Foto: Rosana Singer

    Quando chamaram a bióloga Andreia Carneiro para assumir no JBPA, recebeu um incentivo de seu orientador, o professor Bruno Irgang:

    – Tu vais gostar, tem o Ari, responsável por muito do que existe lá. Era o homem que andava em cima das árvores com a mesma naturalidade que caminhava, grande conhecedor da nossa flora, dedicado e o melhor companheiro de campo e de churrasco, conta Andreia, diretora do JBPA por quatro anos e meio, hoje licenciada.

    Sementes nativas são essenciais à vida

    O engenheiro florestal Leandro Dal Ri, analista do Banco de Sementes do Jardim Botânico, lembra que a preservação das sementes nativas, ou quaisquer outras sementes, alimentícias ou não, é importante para salvaguardar a diversidade de espécies e de populações dentro da mesma espécie.

    – E os jardins botânicos têm a responsabilidade de conservar em seus bancos de sementes esse capital biológico regional com vistas à biodiversidade e à restauração dos ambientes naturais, porque as sementes nativas são essenciais à vida humana, frisa.

    No entanto, Dal Ri adverte que a cadeia produtiva precisa estar operando em condições adequadas, leia-se, as instalações e o quadro de servidores.

    – Pessoas experientes como o Ari são fundamentais, mas representam uma parte do processo de conservação de germoplasma, pois não se pode coletar e guardar, tem que ter uma equipe, funcionários e estudantes de graduação e pós-graduação no Banco de Sementes, que além do beneficiamento e registro, fazem a pesagem, avaliação da qualidade fisiológica, teste de germinação, para depois encaminhar parte do lote ao viveiro a fim de produzir mudas e outra parte armazenar em estruturas adequadas.

    Sementes de cedrinho conservadas no JBPA.

    Germoplasma é o material genético de um organismo, transmitido de uma geração para outra.

    O atual modelo do banco de sementes florestais nativas do JBPA foi criado por volta de 1996, mas o armazenamento das sementes começou cerca de dez anos antes, por iniciativa de algumas servidoras.

    Mostruário da coleção do Banco de Sementes. Fotos: Cleber Dioni Tentardini

    Dal Ri com material usado em educação ambiental do Banco de sementes

    – Apesar de nosso Index Seminum (sementes armazenadas) tímido, temos um grande potencial para voltar a ser referência com a possibilidade de troca e doação aos viveiros de unidades de conservação e viveiros municipais e de Ongs, inclusive de espécies com algum grau de perigo de extinção, garante Dal Ri.

    Ele cita algumas espécies incluídas na lista vermelha (vulneráveis) de 2014, que se encontram à venda no Jardim Botânico, como o espinilho (Fabaceae Prosopis affinis Spreng), o pau-andrade (Lauraceae Persea willdenovii Kosterm), o araticum-cagão (Annonaceae Annona cacans Warm), a bicuíba (Myristicaceae Virola bicuhyba (Schott ex Spreng) Warb) e o bico-de-pato (Fabaceae Machaerium nyctitans (Vell.) Benth).

    Sementes sendo beneficiadas e catalogadas. Fotos Cleber Dioni

    A engenheira florestal Maristela Araújo, professora do Departamento de Ciências Florestais, da Universidade Federal de Santa Maria, reforça a importância da coleta e da conservação de sementes de espécies nativas em locais apropriados.

    – Um banco de sementes como o do Jardim Botânico de Porto Alegre contribui com a conservação a longo prazo da variabilidade genética das espécies nativas, dentre as quais, algumas ameaçadas de extinção, além de fomentar as pesquisas científicas e atividades de educação ambiental, enfatiza

    Maristela mantém pesquisas com sementes há mais de vinte anos na UFSM através do Projeto “Bolsa de Sementes”, para pesquisa e educação ambiental, em parceria com escolas rurais nos estados do PR, SC e RS, e financiamento da Associação de Fumicultores do Brasil.

    – Não se trata de conservar por conservar, mas dar sustentabilidade à produção em propriedades rurais produtivas e segurança à nossa população, afirma.

    Seu colega na Universidade, o engenheiro florestal Ezequiel Gasparin, lembra que bancos de sementes são desenvolvidos ao longo de muitas décadas, representando a base para conservação de espécies e mitigação de mudanças climáticas, além da produção de mudas visando a recuperação de áreas degradadas ou para fins comerciais.

    Gasparin destaca ainda que as sementes de espécies vegetais nativas servem como abrigo e alimento para fauna adaptada a cada região, incluindo os polinizadores de diversas espécies como as utilizadas na alimentação humana.

    – A floração das espécies nativas também se “espalha” ao longo dos meses do ano, permitindo várias ocasiões de “florada” para polinizadores diversos, dentre os quais as abelhas, que além de permitir a frutificação de muitas espécies vegetais comerciais, nos fornecem o mel e conservam suas próprias colmeias, explica.

    Um museu vivo com cinco mil plantas nativas

    O Jardim Botânico de Porto Alegre é um dos cinco melhores e maiores do Brasil. Modelo em conservação da biodiversidade, mantém a classificação A, com o atendimento de todas as exigências estabelecidas pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) – no art. 6º e respectivos incisos da Resolução 339/2003.

    Possui 28 coleções científicas e didáticas, que somam quase cinco mil plantas nativas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas – estas são encontradas apenas no RS. Há plantas envasadas (plantadas em vasos e abrigadas em casas de vegetação) e do arboreto (plantadas na área do parque). Tem mais de 2.500 exemplares de plantas arbóreas (entre coleções e mudas), cerca de 700 bromélias, 360 cactos e 400 orquídeas. Há plantas vivas com mais de 40 anos. O exemplar 001 de Bromeliaceae está vivo, desde 1982.

    Natividad com a coleção de bromélias do JBPA. Fotos: Cleber Dioni Tentardini

    Estão preservadas no JBPA aproximadamente 145 espécies ameaçadas de extinção entre bromélias, cactos, orquídeas, palmeiras, diversas famílias de arbóreas e pteridófitas (várias famílias de diversos tipos de samambaias e xaxins). Essas plantas são mantidas em coleções, o que se chama de conservação ex-situ (fora do ambiente original), e são referência para a realização de estudos e também a produção de mudas, sendo base para uma possível reintrodução na natureza.

    Identificação das plantas acima: Dyckia-strehliana, Dyckia-reitzii, Cypella-aquatilis, Dyckia-strehliana, Tillandsia-winkler. Fotos: Natividad Fagundes

    Quase todas (95%) bromélias ameaçadas de extinção no RS são conservadas no JBPA, além de outras espécies ameaçadas em nível nacional. E, também, as oito espécies de butiá existentes no RS, todas ameaçadas de extinção.

    A bióloga Natividad Fagundes, curadora das várias coleções, entre elas as bromélias, explica que o quadro de funcionários reduzido, ainda que seja altamente qualificado, dificulta manter a categoria A, de excelência, do JBPA.

    – Se houvesse um corpo técnico-científico maior, isto é, mais compatível com a amplitude das nossas atividades, e também maior investimento e mais divulgação do trabalho e da instituição, o impacto positivo na conservação da biodiversidade e na educação e bem-estar da população seria ainda mais significativo, destaca a bióloga.

    Constam nas coleções, por exemplo, entre as espécies ameaçadas de extinção (a popular ‘lista vermelha’), a Dyckia maritima, uma bromélia endêmica do Parque da Guarita em Torres, e a Gomesa venusta (Orchidaceae), orquídea rara no Estado. A Callisthene inundata, descoberta e descrita por pesquisadores do JBPA, uma árvore endêmica da Serra Gaúcha, que ocorre às margens dos rios Taquari e Antas; o Butia exilata, endêmica do RS; a Xylopia brasiliensis, pindaíba, espécie arbórea que só existe no Brasil; e a Muellera torrensis, árvore da família das leguminosas, ocorrente no litoral norte do RS.

    Viveiro do JBPA. Cleber Dioni

    A bióloga Rosana Singer, curadora das coleções de cactos, orquídeas e de plantas raras e ameaçadas de extinção, dentre outras, diz que há 57 espécies de cactos presentes no JBPA, e destaca algumas espécies com registros na “lista vermelha” da flora riograndense: o cacto Parodia neohorstii, espécie endêmica da Serra do Sudeste, no Estado; o Parodia gaucha, endêmica do Pampa gaúcho; e o Rhipsalis paradoxa, um cacto epífito restrito ao Litoral Norte.

    O Brasil possui 85 jardins botânicos, sendo apenas 25 com algum tipo de enquadramento (categoria A, B, C, ou C provisório), e 5 categoria A, conforme a Resolução 339/2003.

    No RS, existem dois JBPAs municipais, de Caxias do Sul e Lajeado, um privado, da Unisinos, um ligado à Universidade Federal de Santa Maria, e o de Porto Alegre, o maior.

    O JBPA, assim como o Museu de Ciências Naturais, estão sob responsabilidade da Divisão de Pesquisa e Manutenção de Coleções Científicas, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura. O atual diretor é o biólogo Cesar Rodembusch.

    Nos idos de 1950, era um campo de butiás

    Criado em 1956, o Jardim Botânico de Porto Alegre só foi aberto ao público em 1958. Era uma chácara de 81 hectares, com um campo de butiás. Hoje não passam de 39 hectares.

    Irmão lassalista Teodoro, primeiro diretor do JBPA

    O terreno original incluía uma colônia agrícola e a antiga chácara do Visconde de Pelotas, “compreendendo a elevação de um morrinho granítico a 50 metros sobre o nível do mar, vales de alguns arroios à sua periferia, marginados por várzeas de regular extensão”, na descrição do Irmão Teodoro.

    “O terreno sobre o qual se assenta, diz Teodoro, é parte do complexo cristalino do Escudo Rio-grandense, uma das mais antigas formações da terra, revestida por um manto vegetativo sui-generis, que contém algumas espécies encontradas unicamente aqui.”

    Colocação de mudas nativas. Arquivo JBPA

    A implantação de um Jardim Botânico na capital gaúcha foi decidida pelo governador Ildo Meneghetti e efetivada pelo secretário de Obras, Euclides Triches, que depois foi governador do Estado.

    Na comissão figuravam cientistas, médicos, engenheiros, arquitetos e urbanistas, como Edvaldo Pereira Paiva, Alarich Schultz, padre Balduino Rambo, Curt Mentz, F. C. Goelzer, Ruy B. Krug, Guido F. Correa, Nelly Peixoto Martins, Paulo Annes Gonçalves, Deoclécio de Andrade Bastos, além do senador Mem de Sá e do jornalista Say Marques, um dos idealizadores da Feira do Livro de Porto Alegre.

    Foi no período do governo militar, a partir de 1964, que o Jardim Botânico teve suas maiores perdas. Os governadores nomeados doaram partes do terreno do JBPA a várias instituições: o Clube Farrapos, da Brigada Militar; o Hospital São Lucas, da PUC; o Círculo Militar, do Exército; a vila Juliano Moreira, a Escola de Educação Física da UFRGS; e os laboratórios da Fepam, hoje desocupados.

    Em 2003, o JBPA foi declarado Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul, pela Lei nº 11.917. Em 2004, foi publicado o Plano Diretor. Proposta semelhante foi feita pelo então vereador Marcelo Sgarbossa, na época do PT, para tombar o imóvel sede do JBPA como Patrimônio Cultural e Histórico de Porto Alegre, mas nunca foi à votação.

  • Quilombo da Anastácia, em Viamão, ganha reconhecimento após 15 anos de luta pela terra

    Quilombo da Anastácia, em Viamão, ganha reconhecimento após 15 anos de luta pela terra

    Cleber Dioni Tentardini

    A Fundação Cultural Palmares, do governo federal, reconheceu, em 2007, o direito às terras do Quilombo da Anastácia, um dos três existentes no município de Viamão.

    A sede regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) realizou estudos de identificação e delimitação e avalizou a comunidade quilombola, mas faltava a decisão final do Incra em Brasília para que os moradores ganhassem o direito a receber os títulos de propriedade.

    A decisão veio no dia 20 de novembro de 2023. Nesse Dia Nacional da Consciência Negra, o Incra reconheceu 29 comunidades quilombolas, incluindo as 16 famílias da Anastácia, que ganharam o direito à propriedade de pouco mais de 64 hectares.

    Uma empresa catarinense produtora de arroz no local, no entanto, contestou o laudo, reivindicando a propriedade de parte das terras onde está o quilombo, mas o Conselho Diretor do Incra confirmou o direito da comunidade.

    O sociólogo Sebastião Henrique Lima, responsável pelo setor de regularização de territórios quilombolas no Incra/RS, explica que a publicação da Portaria encerrou o processo administrativo.

    – A sede regional do Instituto está providenciando um histórico de todo o processo para enviar à Superintendência do Incra, onde será revisado e, se tudo estiver certo, encaminhado à Casa Civil para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assine o decreto, detalha Lima.

    A partir da desapropriação de parte da área pertencente à empresa agrícola, o Incra registra em cartório o imóvel em seu nome e deposita em uma conta judicial o valor a que tem direito a antiga proprietária.

    Quilombo da Anastácia, em Viamão., Foto: Cleber Dioni

     

    MP concluiu inquérito sobre conflitos no uso da água

    No decorrer do processo, as famílias da Anastácia sofreram assédios da produtora de arroz Fazenda Embireira Agroflorestal, que descumpriu acordo feito com os moradores para poder captar água na parte da lagoa que está dentro dos limites do Quilombo. A lagoa é uma planície de inundação do rio Gravataí.

    “Não pagavam pelo uso da água e ainda fecharam um canal na lagoa, que dá acesso ao Quilombo. Antes recebíamos turistas, vendíamos lanches, inclusive hospedávamos alguns casais, que ficavam encantados com nosso quilombo, queixou-se Berenice Gomes de Deus, uma das lideranças da comunidade.

    Berenice é neta de Anastácia de Oliveira Reis, que dá nome ao quilombo, e bisneta de Hortência Marques de Oliveira, que viveu como escrava naquela região da Estância Grande.

    Lagoa no Quilombo da Anastácia, em Viamão. Foto: Cleber Dioni

     

    Barragem de plantadores de arroz na lagoa do, Quilombo. Foto: Cleber Dioni

    O Ministério Público do Estado, através da Promotoria Regional da Bacia do Gravataí, instaurou inquérito civil para acompanhar os conflitos em uso de área de sobreposição entre o quilombo e a produtora de arroz.

    A promotora de Justiça Roberta Morillos Teixeira diz que, à princípio, os moradores negaram interesse em novo acordo porque a empresa não cumpriu com as contrapartidas, mas depois de algumas reuniões, chegaram a um denominador comum.

    Promotora Roberta Teixeira. Foto: MPRS

    – Paralelo a isso, a Promotoria conduziu investigações por descumprimento das condicionantes do licenciamento pela Fazenda Embireiria e pelas outorgas de uso da água. E acompanhamos também as medidas administrativas da Fepam e da SEMA.

    A empresa Fazenda Embireira Agroflorestal foi multada pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) por construção de canais novos sem licença de operação.

    A região onde está o quilombo e a produtora de arroz, a Estância Grande, está dentro da Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande (APABG).

    Um parecer da equipe técnica e gestora da APABG identificou a área como sendo de extrema sensibilidade ambiental e social, uma vez que segundo o Plano de Manejo, tem porção de área dentro da zona de adequação ambiental e zona de uso restrito do Banhado.

    Referente às questões sociais, insere-se entre duas comunidades tradicionais, o assentamento Filhos de Sepé e a comunidade Quilombola da Anastácia.

    O documento assinado pelas analistas ambientais da SEMA a bióloga Cecília Schuler Nin e engenheira agrônoma Letícia Vianna, gestora da APA, determinou uma série de condicionantes à Fazenda Embireira sob pena de revogar a autorização emitida pela unidade de conservação para continuar suas atividades.

    Quilombo Anastácia – Relatório de Fiscalização

    – O empreendedor descumpria o licenciamento ambiental e, por consequência, os alvos de conservação da APA do Banhado Grande, e somado a isso, omitia o conflito com a área do quilombo dentro do processo de outorga, bem como desrespeitava a área dessa comunidade, registrou o parecer.

    O novo presidente da associação de moradores do quilombo, Willian Santos, diz que representantes da empresa reuniram-se com a comunidade para que a Fazenda pudesse continuar puxando água da Lagoa da Anastácia e que o canal construído sem autorização, causador das desavenças, seria fechado caso prejudicasse o acesso ao quilombo pela lagoa.

    – Com as enchentes, o canal ficou submerso. Mas se houver estiagem e o canal aparecer, a empresa terá que fechar. Mas, realmente, acho que ficou mais difícil até para empresa renovar a outorga a fim de continuar usando água da lagoa, adverte.

    Os representantes da empresa agrícola não foram localizados pela reportagem.

    Willian Santos  (à frente) e amigos na Lagoa da Anastácia em direção ao Quilombo.

    Willian é filho de Zadir Eloísa dos Santos, uma das netas da Anastácia. Ele mora em Gravataí e trabalha em Porto Alegre como micro empreendedor no ramo de estética automotiva. Visita seus familiares no quilombo nos finais de semana.

    – Além da titulação das terras, temos que lutar por melhorias na infraestrutura na região onde está o quilombo, posto de saúde, transporte público acessível, escola, e promover o turismo, com o retorno, por exemplo do Barco-Escola Rio Limpo que visitava o quilombo, e outras iniciativas, afirma Santos.

    Dona Berenice diz que das mais de cem pessoas que moravam, permanecem trinta.

    – É tudo muito difícil, por isso ficaram os velhos, que não precisam mais trabalhar, diz a líder quilombola.

     

    Quilombo sofre com falta de infraestrutura. Foto: Cleber Dioni

     

    Anastácia era baixinha braba

    Dona Berenice é neta da Anastácia de Oliveira Reis, que dá nome ao quilombo, e bisneta da Hortência Marques de Oliveira, que viveu como escrava nessa região da Estância Grande.

    – Convivi com a vó até os 25 anos. Era bem baixinha e braba, principalmente com quem judiava dos netos, mas cuidava de todos, conhecia os chás, as simpatias, ninguém precisava ir no médico”, recorda.

    Vò Anastácia com os netos nos idos de 1950/Fotos: álbum de família

    A artesã lembra das histórias que sua vó contava sobre a Hortência ajudar na fuga de escravos pelo rio Gravataí, principalmente os homens, que eram surrados e assassinados com frequência.

    – Ela ajudava a atravessar para o quilombo Manuel Barbosa, em Gravataí, conta a bisneta da Hortência.

    Antigos moradores

    Tia Chica, filha de Anastácia. Fotos : AMQA
    Tia Cida e o neto Jhonatan. Foto: Associação dos moradores
    Marcíri, marido da tia Chica, uma das filhas da Anastácia. Foto Associação dos moradores

    Os primeiros europeus chegados nos Campos de Viamão no início do século 18 trouxeram negros escravizados.

    Alguns registros apontam que o estancieiro viamonense Serapião José Goulart, um dos maiores proprietários de terras do município, dono da fazenda Boa Vista – em cuja sede, no início do século 19, pernoitou o viajante August Saint-Hilaire -, tinha entre seus escravos a Hortência, mãe da Anastácia.

     

    Faltam políticas públicas para os quilombolas

    Uma das moradias. Foto Associação dos moradores

    Dos 134 quilombos em 69 municípios gaúchos, os quilombos em Viamão estão entre os mais atrasados devido à falta de políticas públicas.

    Além do Anastácia, há o Cantão das Lombas, na divisa com Santo Antônio da Patrulha, com 28 famílias em 154,75 ha, cujo processo de regularização está tramitando desde 8 de dezembro de 2021, e do Capão da Porteira, na divisa com o município de Capivari.

    O biólogo Jorge Amaro, primeiro vereador quilombola, eleito pelo PP no município de Mostardas, morou mais de vinte anos em Viamão e conhece bem a realidade das comunidades.

    Embora os quilombolas de Mostardas tenham sido reconhecidos há muito mais tempo e estão organizados em associações e dispõem de muita infraestrutura, os de Viamão não estão inseridos sequer nas políticas públicas de auxílio aos moradores.

    – A Prefeitura e outras entidades têm que ajudar. A UFPEL e a FURG, por exemplo, oferecem cotas universitárias para quilombolas, e auxiliam na moradia, alimentação, transporte, então porque outras instituições de ensino em Viamão, Porto Alegre, não podem contribuir também, questiona o vereador.

     

    Ausência de trajetórias

    A antropóloga Vera Rodrigues da Silva abordou o Quilombo da Anastácia na sua dissertação de mestrado, apresentada em 2006, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da UFRGS. O título: “De gente da Barragem” a “Quilombo da Anastácia”: Um Estudo Antropológico sobre o Processo de Etnogênese em uma Comunidade Quilombola no Município de Viamão/RS.

    Suas pesquisas sustentaram a titulação das terras para os descendentes de negros escravizados daquela localidade.

    Antropóloga Vera Rodrigues da Silva

    – Comecei a pesquisar no final dos anos 1990, e estavam em discussão duas ações afirmativas nas universidades públicas brasileiras: as cotas raciais e os direitos territoriais das comunidades quilombolas.

    – Isso sempre me incomodou nas trajetórias negras, que é justamente a ausência de trajetórias. Na mídia, na ciência, de um modo geral, parecem que as pessoas negras brotam do chão, não tem ancestralidade, raiz, história. Então, esse foi meu tema na monografia de graduação. E no mestrado, em 2006, já havia a expectativa de titulação das terras, e isso levaria segurança jurídica aos quilombolas, porque havia espoliação, apropriação ilegal de terras, como eu ouvi dizer: “as cercas andam na madrugada”. Mas como estávamos numa época em que a política pública se desenvolvia no país, a pergunta era: como uma política pública de direitos quilombolas se desenvolve no “estado mais branco do Brasil”?

    Anastácia nasceu em 1896, portanto era livre (Lei do Ventre Livre é de 1871 e determinava que os filhos de escravas nascidos posterior àquela data eram livres). Já, a abolição da escravidão em Viamão ocorreu em 1884, anterior à Lei Áurea, de 1888.

    Nos idos de 1870, dentre os 1.028 habitantes de Viamão, 749 eram negros, cerca de 70% do contingente populacional. (Fonte: MONTI, Verônica. “O Abolicionismo: 1884 sua hora decisiva no RS”, 1985). Hoje, 44% de 250 mil habitantes são considerados negros.

    Dos 106 processos no Estado, apenas um tem a titulação integral do território

    Quilombo Cantão das Lombas, na divisa de Viamão com Santo Antônio da Patrulha, tem 28 famílias em 154,75ha, cujo processo de regularização está tramitando desde 2021. Foto: Cleber Dioni

    “Há 106 processos abertos para regularização de quilombos na superintendência do Incra no Rio Grande do Sul. Apenas quatro comunidades foram tituladas, mas mesmo assim, destas, em três a titulação do território é parcial, pois aguardam a conclusão das ações desapropriatórias. O Título de Domínio emitido pelo Incra é coletivo, em nome da associação de moradores.

    O Quilombo Casca, em Mostardas, por exemplo, com 85 famílias, tem pouco mais da metade (51%) da área de 2.300 hectares concluída.

    Os demais são Família Silva, em Porto Alegre (12 famílias, em 0,65 ha – 35%), o Rincão dos Martinianos, em Restinga Seca (55 famílias, em 98,5 há – 27%), a Chácara das Rosas, em Canoas (20 famílias em 0,36 há – 100%).

    O Rincão dos Caixões, em Jacuizinho (22 famílias em 226,16 ha). ainda está em fase de desapropriação. O Incra está na posse do território e a comunidade está usufruindo integralmente a área, mas ainda não foi titulada.

    O maior quilombo com processo em andamento no Estado é o Morro Alto. Desde 2011, 456 famílias reivindicam 4.564,4 hectares nos municípios de Maquiné e Osório.

    Em Viamão, duas das três comunidades quilombolas estão com processo em curso, o da Anastácia e o Cantão das Lombas, 28 famílias em 154,75 ha, com processo em tramitação desde 8 de dezembro de 2021.

    Nove quilombos gaúchos foram incluídos em uma Portaria no Diário Oficial do governo federal, mas as comunidades ainda não receberam os títulos das terras. São eles: São Miguel (Restinga Seca), Manoel Barbosa (Gravataí), Arvinha (Coxilha e Sertão), Cambará (Cachoeira do Sul), Mormaça (Sertão), Palmas (Bagé), Limoeiro (Palmares do Sul), Areal Luis Guaranha (Porto Alegre), e dos Alpes (Porto Alegre).

    Censo 2022: Brasil tem 1,3 milhão de quilombolas

    Dados inéditos sobre população quilombola no país foram divulgados em julho deste ano de 2023 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), resultado do Censo 2022.

    Segundo matéria da Agência Brasil, o país tem 1,32 milhão de quilombolas, residentes em 1.696 municípios.

    Os quilombos Kalunga, em Goiás, e Erepecuru, no Pará, são os maiores do Brasil. O primeiro envolve 54 comunidades, com 888 famílias, em uma área de 261,99 mil hectares, e o segundo, vivem sete comunidades, com 154 famílias, em uma área de 231,6 mil ha.

    O total de títulos concedidos é de 322, em 206 territórios, envolvendo 356 comunidades, 21.093 famílias e 1,090 milhão de hectares de área titulada, dos 1,513 milhão de ha reconhecidos. Significa que 72% da área reconhecida foi titulada.

    Na divulgação da publicação Brasil Quilombola: Quantos Somos, Onde Estamos?’, em Brasília, o presidente em exercício do IBGE, Cimar Azeredo, considera que os números inéditos sobre esse grupo populacional são uma verdadeira reparação histórica de injustiças cometidas no passado.

    “São essas populações que mais precisam das estatísticas, desses números. A gente precisa saber quantas escolas, quantos postos de saúde, coisas relacionadas à educação e tudo o que essa população quilombola precisa, como a titulação [de terras]. Os dados que estão sendo apresentados hoje, pelo IBGE, se tornam, praticamente, uma reparação histórica”. Cimar Azeredo adiantou que, brevemente, o IBGE vai apresentar informações básicas sobre pessoas indígenas e moradores de comunidades e favelas.

    A representante da Organização das Nações Unidas no Brasil, Florbela Fernandes, destacou que o levantamento e a divulgação de dados sobre a população quilombola no Brasil tem um simbolismo enorme a todo o país. “A inclusão de um quesito específico para a população quilombola [no censo] representa um marco de reparação histórica importante e que serve de investigação de referência para outros países da diáspora africana”.  “Essa é a primeira pesquisa oficial para coletar dados específicos sobre a população quilombola. Após 135 anos da abolição da escravidão no Brasil, finalmente, saberemos quantos quilombolas são exatamente, onde estão, e como vivem”, comemorou Florbela Fernandes.

  • Feiras ecológicas da José Bonifácio recebem, no sábado (07), Regina Tchelly, da Favela Orgânica

    Feiras ecológicas da José Bonifácio recebem, no sábado (07), Regina Tchelly, da Favela Orgânica

    A Feira de Agricultores Ecologistas (FAE) e a Feira Ecológica do Bom Fim (FEBF), em parceira com a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, recebem no próximo sábado, dia 7 de setembro, Regina Tchelly, chef de cozinha e empreendedora social, fundadora da Favela Orgânica.

    A programação, a partir das 8h30, contará com uma caminhada guiada pelas feiras ecológicas da avenida José Bonifácio, seguida pelo lançamento da Cartilha Exigibilidade do Direito a estar Livre da Fome e uma roda de conversa, no “areião” da Redenção, entre as duas feiras.

    A chef, que atua principalmente nas comunidades da Babilônia e Chapéu da Mangueira, no Rio de Janeiro, ensina como aproveitar o alimento de forma integral, sem desperdício, em uma gastronomia simples e criativa. Além disso, o projeto Favela Orgânica também combate a fome.

    – Eu queria fazer algo que pudesse modificar a nossa relação com os alimentos. Me dava muita agonia ver tanta comida não aproveitada. Isso ficou na minha cabeça e em 2011 eu desenvolvi um projeto, em uma agência na época, que pudesse trazer benefício às favelas e à cidade, diz Regina

    Essa cartilha faz parte de um projeto da Aliança, cujo núcleo gestor do Rio Grande do Sul trabalhou por 18 meses com foco no direito humano à uma alimentação adequada e saudável, levando em consideração todos os direitos que foram impedidos durante o processo de desmonte das políticas públicas através do antigo governo federal.

    – A vinda de Regina Tchelly foi para trazer toda essa teoria na prática, por ela dialogar com os públicos alvos, com uma didática muito legal e trabalha tudo que está escrito na cartilha: alimentação adequada e saudável; aproveitamento integral dos alimentos, agroecologia e pancs, afirmou a agricultora Fran Bellé, estudante de nutrição e membro da Aliança.

    (Com informações de Simone Otto, assessoria de comunicação da FAE)

  • Prefeitura quer debater com moradores do Petrópolis adoção compartilhada de praça

    Prefeitura quer debater com moradores do Petrópolis adoção compartilhada de praça

    Um dia depois de entregar à Prefeitura um manifesto contra à adoção da praça Mafalda Veríssimo por parte da Empresa Plaenge, na terça-feira, dia 2, o movimento comunitário Petrópolis Vive foi convidado pela Secretaria Municipal de Parcerias a discutir a possibilidade de uma adoção compartilhada do espaço de lazer com a construtora e o Centro Infantil Ser Criança.

    A empresa paranaense Plaenge é alvo de protesto dos moradores e ongs ambientais há dez dias, após derrubar um guapuruvu de pelos menos sessenta anos e outras árvores no seu canteiro de obras da rua Felipe de Oliveira, onde vai construir um prédio de alto padrão.

    A repercussão negativa culminou num evento cultural realizado no último domingo de junho na praça Mafalda, famosa por sua caixa d´água, e um abaixo-assinado que recolheu mais de 300 assinaturas.

    Um dos integrantes do movimento comunitário Petrópolis Vive, Marcelo Roncato,  considerou uma vitória parcial dos moradores.

    – Esse convite deveria ter sido feito bem antes, para os  moradores e frequentadores opinarem sobre a adoção da praça, até porque existe a lei municipal 12.583 onde consta que as adoções podem ser feitas por pessoas físicas. Portanto, queremos participar, sim.

    A adoção inclui serviços de capina, recolha de lixo, paisagismo, manutenção de equipamentos, entre outros.