Categoria: Ambiente JÁ-MATÉRIA

  • Brasil já tem 200 datacenters, mas 60% dos dados de brasileiros ainda estão fora do país

    Brasil já tem 200 datacenters, mas 60% dos dados de brasileiros ainda estão fora do país

    O presidente Lula sancionou a lei que define as regras e cria incentivos fiscais para a instalação de Datacenters no Brasil, a Redata.

    O Brasil já tem cerca de 200 datacentes instalados no país, com investimentos que superam os R$ 100 bilhões. Mas, segundo o governo, cerca de 60% dos dados dos brasileiros ainda estão fora do país, com perdas econômicas e riscos estratégicos.

    Pela nova lei, os projetos habilitados ficam isentos por cinco anos do Imposto de Importação, IPI e PIS/Cofins  na compra de equipamentos. O governo estima que já em 2026, essa isenção chegará a R$ 5,2 bilhões.

    O incentivo fiscal é uma contrapartida necessária para reduzir rapidamentea dependência tecnológica, mas não dispensa regras rígidas de controle  ambiental.

    O elevado consumo de energia e de água e emissões de gases de efeito estufa, são os principais impactos ambientais dos datacenters.

    Os investidores serão obrigados a suprir toda a sua demanda de energia elétrica por meio de fontes renováveis ou de baixa emissão.

    A empresa também é obrigada a destinar pelo menos 10% de sua produção para o mercado brasileiro.

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  • Porto Alegre: ciclovia que asfalto engoliu não tem data para voltar

    Porto Alegre: ciclovia que asfalto engoliu não tem data para voltar

    A ciclovia implantada na rua Mariante há dez anos reduziu o número de acidentes. Hoje é um exemplo da “falta de prioridade com a mobilidade ativa em Porto Alegre”

    Reportagem de Tiago Medina

    O engenheiro Henrique Ferreira da Costa estava em seu trajeto diário de bicicleta quando, na rua Mariente, deparou com uma equipe da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Smsurb), restaurando o asfalto da via. Dias depois, percebeu que a obra estava concluida, mas a ciclovia que existe há dez anos ficara escondida.

    A obra na Mariante foi concluída em 15 de agosto. Até agora, a via para as bikes não apenas não foi reimplantada em sua totalidade, como já existem carros que estão utilizando o espaço para estacionar. 

    “Ficou aquela sensação de insegurança de pedalar numa rua sem ciclovia, embora ela esteja ali hipoteticamente”, diz o engenheiro Henrique, lembrando que o trecho bastante movimentado, sem a sinalização., representa alto risco para os pedestres e ciclistas. 

    Sem mencionar data, a prefeitura informou que a ciclovia não será extinta, embora isso seja possível pelas regras do novo Plano Diretor.

    Em nota conjunta, a Smurb e a Empresa Publica de Transporte e Circulação afirmam que, “após a conclusão dos serviços de requalificação do pavimento da rua Mariante, será implantado o projeto de nova sinalização viária e cicloviária no trecho entre a rua Castro Alves e a avenida Protásio Alves”. 

    Gerente de Mobilidade Urbana do WRI Brasil, Paula Santos ressalta que uma obra deste porte – que chegou a ganhar destaque no noticiário por conta dos congestionamentos – deve ter atenção especial com a segurança de pedestres e ciclistas. “Assim como os veículos, eles continuarão passando pela via durante a obra”, apontou. 

    De acordo com ela, existem soluções provisórias para evitar situações como a que Henrique viveu. “Uma alternativa viável é preservar uma faixa para a circulação das bicicletas durante a obra com equipamentos móveis e boa sinalização”, sugeriu. “É uma solução de urbanismo tático e foi adotado por muitas cidades no mundo para acomodar novos fluxos de ciclistas durante a pandemia de covid-19.”

    A execução da obra com a interrupção da ciclovia, pode acabar por gerar sequelas à mobilidade, conforme a especialista: “Desincentiva o uso da bicicleta e, principalmente, pode colocar os ciclistas em situações de risco”, afirmou. “Uma obra já cria um ambiente de maior complexidade e imprevisibilidade na via. Se, nesse contexto, a infraestrutura para bicicletas também desaparece ou não é claramente sinalizada, isso pode gerar insegurança e afastar as pessoas do uso da bicicleta, principalmente mulheres e crianças.”

    No caso da Mariante, além de voltar, a futura sinalização deverá ganhar um certo reforço, quando essa nova etapa das obras começar: “Após a conclusão dos serviços de requalificação do pavimento da rua Mariante, será implantado o projeto de nova sinalização viária e cicloviária no trecho entre a rua Castro Alves e a avenida Protásio Alves”, diz trecho de nota da Smsurb e EPTC.

    Doutora em planejamento urbano e regional pela UFRGS, a pesquisadora Jennifer Domeneghini adverte que este momento, entre o fim da obra e a implantação do novo projeto, é o que requer mais atenção a ciclistas: “Com a obra encerrada, os motoristas deixam de manter a atenção redobrada e, sem sinalização provisória, o risco para quem pedala aumenta”, alertou.

    Enquanto a revitalização não for totalmente concluída, a indicação é de que se respeite o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) – que prega que o ciclista deve usar a pista de rolamento no mesmo sentido da via. A recomendação, porém, contradiz o próprio fluxo da ciclovia, que faz com que os usuários de bicicletas andem no sentido oposto ao dos carros entre a Vasco da Gama e a Protásio Alves quando se deslocam no sentido zona sul. 

    Acidentes

    Presente no cotidiano dos porto-alegrenses desde janeiro de 2016, a ciclovia da Mariante era segregada da via, ou seja, com obstáculos entre a pista dos automóveis e a das bikes. O que, no senso comum, pode soar como um detalhe a mais, para especialistas têm uma função relevante, pois, com mais segurança, aumentam as chances de novos ciclistas trafegarem nela. “Um estudo recente com cidades latino-americanas, por exemplo, aponta que ciclovias segregadas podem aumentar o uso da bicicleta em 48% a 187%”, indica a gerente de mobilidade do WRI, Paula Santos. 

    E não apenas mais ciclistas, como menos conflitos. “Há bastante evidência de que a ausência de separação física entre bicicletas e veículos motorizados aumenta os conflitos e os riscos de colisões”, acrescenta. Tais evidências apontadas nos estudos referidos pela gerente do WRI encontram eco na rua Mariante. No local, a média de sinistros anuais entre 2010 e 2015 – período anterior à implantação de ciclovia – foi de 103 para 55 na comparação com os dados de 2016 a 2025. As informações estão disponíveis no portal EPTC Transparente. 

    A redução também é vista na média anual de feridos em acidentes na via: antes da implantação da ciclovia eram 15 e, depois, passou para 11. Das ocorrências de sinistros neste ano na Mariante, uma envolve ciclista, que se feriu em fevereiro, antes do início das obras. Ao longo do ano passado, foram dois ciclistas entre as 17 pessoas que acabaram feridas em sinistros na via.  

    Para a pesquisadora em mobilidade urbana Jennifer Domeneghini, os números apontam para uma possível contribuição da ciclovia à segurança do trânsito na região. “Outro dado que pode ser considerado nessa análise é que mesmo com o aumento da circulação de bicicletas no trecho da ciclovia da Mariante, segundo dados da EPTC, os sinistros envolvendo ciclistas permaneceram baixos”, explicou. “Mais um dado que pode ser destacado é que a maior parte dos sinistros envolvendo ciclistas ocorre próximo aos cruzamentos, que são justamente os pontos onde bicicletas e veículos motorizados dividem o mesmo espaço e que precisam de atenção redobrada no projeto e na sinalização.”

    A gerente de Mobilidade Urbana do WRI, Paula Santos, concorda com a hipótese, mas pondera que, para confirmá-la, é necessário uma análise mais aprofundada. A tendência seria de que ciclovias elaboradas corretamente deixam as ruas mais seguras a todos os envolvidos no trânsito: “De modo geral, a literatura mostra que é possível associar infraestrutura cicloviária bem projetada a reduções de sinistros”, atestou.

    Num recorte mais acurado, os bons números, entretanto, não têm se repetido em 2026. A Mariante já registra em 2026 seu recorde de acidentes na rua para os sete primeiros meses do ano. De acordo com a EPTC, entre janeiro e julho deste ano, houve 37 registros de sinistros.

    No mesmo período do ano passado foram 30 e, em 2024, 27. O volume de 2026 é, além de uma tendência de alta, o maior dos últimos dez anos na via para o período. A série histórica da EPTC teve início em 2010. 

    Para o futuro, a promessa da prefeitura para o trecho vai no sentido de reimplantar uma ciclovia estruturada. “A intervenção contemplará a pintura horizontal do pavimento, com novas travessias de pedestres, a divisão e a organização das faixas de circulação e o retorno da ciclovia existente. Também será reforçada a sinalização vertical, com a implantação e a adequação de placas para ampliar a orientação aos condutores e qualificar a organização do tráfego”, diz a nota conjunta de Smsurb e EPTC.

    Convém pontuar que um trecho da ciclovia da Mariante, entre a Travessa Helena Sperotto e a Rua Cabral, segue operante. O local “não recebeu pavimentação no último serviço de requalificação, pois, segundo avaliação técnica, apresenta boas condições”, conforme a prefeitura. 

    Marcha lenta

    O documento que guia a implantação de ciclovias em Porto Alegre é o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI), aprovado em 2009 pela Câmara Municipal. A norma prevê 495 quilômetros de rotas para ciclistas espalhadas pelo território da cidade. O texto ainda estipulava que a estrutura deveria ser concluída até 2012. Só que a realidade é distante desta meta. A capital gaúcha conta com menos de 90 quilômetros de ciclovias atualmente. 

    Em 2026, uma emenda que entrou no texto do novo Plano Diretor de Porto Alegre autoriza a prefeitura a revisar tanto ciclovias como vias para o transporte coletivo, como corredores de ônibus. Ao não ser vetado, o texto passou a integrar a lei que rege o desenvolvimento urbano da cidade pelos próximos dez anos. 

    Para Jennifer Domenghini, o Plano Diretor aprovado pouco após a cidade viver o ano mais letal para ciclistas em uma década (foram nove óbitos em 2025, conforme a EPTC), mostra que a cidade retrocede na discussão do assunto: “É muito preocupante que o Plano Diretor tenha deixado de aprofundar o tema da mobilidade ativa, justamente quando já se sabe que ela é uma das formas mais importantes de mitigação climática, ao desestimular o uso do automóvel, que é um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global”, comentou. 

  • Lutzenberger, há 54 anos: “Sem preservação, teremos enchentes cada vez mais imprevisíveis e violentas”

    Lutzenberger, há 54 anos: “Sem preservação, teremos enchentes cada vez mais imprevisíveis e violentas”

    A região metropolitana de Porto Alegre estará sujeita a enchentes cada vez mais “imprevisíveis e violentas” se nada for feito para preservar os banhados e a vegetação no entorno do Guaíba e seus afluentes.

    O alerta foi feito pelo então fundador presidente da Agapan, José Lutzenberger, em extenso artigo na edição de 27 de agosto de 1972 do  Correio do Povo (na época o principal diário do Rio Grande do Sul).

    Veja o resumo do artigo  “Estuário do Guaíba, Reserva da Grande Metrópole do Futuro”, escrito por José A. Lutzenberger. Na época a região metropolitana tinha 1,5 milhão de habitantes. Hoje ultrapassa os 4 milhões.

    O texto é um alerta pioneiro sobre a degradação ambiental no Rio Grande do Sul, causada, principalmente, pelo o avanço dos aterros, drenagem e secamento dos banhados no Estado, para expansão urbana, agricultura, pecuária ou plantios de eucalipto.

    Alerta para o “desaparecimento total dos banhados em poucos anos”, se medidas preventivas não fossem tomadas.

    Lutzenberger critica a postura “ecologicamente cega” e pautada pelo imediatismo econômico. “A especulação imobiliária ignora as necessidades de longo prazo da coletividade”, destaca.

    “Há”, diz ele, “uma visão leiga e equivocada de que banhados servem apenas para criar mosquitos e jacarés. Banhados, afirma, estão entre os ecossistemas mais produtivos e cruciais do planeta. Cerca de 60% da produtividade dos oceanos depende direta ou indiretamente dos banhados”.

    Os banhados do Guaíba e da Lagoa dos Patos garantem o suporte de vida e o equilíbrio biológico de todo o estuário. A perda da vegetação nativa desestabiliza o regime de águas do estuário. Os banhados atuam como filtros biológicos naturais que depuram a poluição acumulada. Sem eles, a capacidade de auto-purificação das águas é perdida e a poluição se agrava.

    “Exercem papel fundamental no controle de cheias ao reterem grandes volumes de água. O fim dos banhados tornará as enchentes mais imprevisíveis e violentas”.

    O resultado de sua destruição é que “volumes cada vez maiores de sedimentos carreados pelos rios Jacuí, Sinos, Caí e Gravataí causam o assoreamento crescente do Guaíba, problema que a engenharia tenta resolver de forma paliativa por meio de dragagens”.

    “Os efluentes que chegam ao Guaíba não contêm apenas matéria orgânica que se decompõe. Indústrias metalúrgicas e químicas despejam sais de metais pesados e cianureto nas águas. As águas pluviais varrem contaminantes das cidades diretamente para os cursos d’água”.

    “Os banhados atuam como filtros biológicos naturais que depuram a poluição acumulada. Sem eles, a capacidade de auto-purificação das águas é perdida e a poluição se agrava. Exercem papel fundamental no controle de cheias ao reterem grandes volumes de água. O fim dos banhados tornará as enchentes mais imprevisíveis e violentas”.

    O estuário confere um valor estético e recreativo único no contraste com o centro urbano.

    A urbanização desordenada destruiria o principal patrimônio ambiental paisagístico da cidade.

    A área deveria ser convertida em reserva biológica para proteger a avifauna e fauna aquática.

    Lutzenberger condena o uso de aterros sanitários com lixo urbano nas ilhas.

    O lixo em decomposição anaeróbia contamina o lençol freático com substâncias tóxicas.

    A única solução sustentável para os resíduos é a coleta seletiva e a reciclagem industrial.

  • Inquérito apura danos ambientais causados pelo eucalipto no Cerrado

    Inquérito apura danos ambientais causados pelo eucalipto no Cerrado

    O Ministério Público abriu um inquérito  para investigar possíveis danos ambientais causados pela expansão das plantações de eucalipto usadas pela indústria da celulose na região leste do estado do Mato Grosso do Sul.

    A apuração está a cargo da 1ª Promotoria de Justiça de Três Lagoas, que vai analisar possíveis efeitos sobre recursos hídricos, fauna e flora.

    A investigação, a cargo da Promotoria de Justiça de Três Lagoas, foi motivada por denúncias enviadas à Ouvidoria do MPMS e à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.

    As denúncias baseiam-se em relatórios técnicos socioambientais produzidos na região da Costa Leste.

    Um dos principais focos da investigação é a situação das nascentes e dos cursos d’água. Estudos apresentados ao Ministério Público apontam que mais de 400 nascentes podem ter sido impactadas ou degradadas na região leste do estado, principalmente em assentamentos rurais de Três Lagoas e Selvíria.

    Conforme os documentos analisados, o avanço da monocultura de eucalipto ocorre em áreas consideradas sensíveis do Cerrado e em regiões de transição entre biomas.

    Pesquisadores e moradores demonstram preocupação com o consumo de água da atividade, desde o cultivo do eucalipto até a fabricação de celulose.

    Segundo os relatos, isso pode afetar o ciclo da água e comprometer córregos e rios da região.

    Além dos recursos hídricos, o inquérito também busca identificar possíveis impactos à biodiversidade, incluindo danos à fauna e à flora nativas decorrentes da substituição da vegetação natural.

    O órgão também vai analisar se as empresas de celulose que atuam na região cumprem a legislação ambiental.

    Entre os pontos que serão verificados estão:

    • Os licenciamentos ambientais;
    • As outorgas para captação e uso da água;
    • Os planos de manejo florestal e o cumprimento das compensações ambientais;
    • As medidas mitigadoras exigidas pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc).

    (Com informações do G1)

  • Debate: o impacto dos grandes empreendimentos num contexto de mudança climática

    Debate: o impacto dos grandes empreendimentos num contexto de mudança climática

    Dois eventos vão debater os impactos sociais e ambientais de grandes empreendimentos projetados para Rio Grande do Sul, neste final de julho.  

    No dia *23 de julho (quinta-feira), às 10h, na Sala do Circo, no Multipalco,o evento reúne representantes de territórios atingidos por três grandes projetos de infraestrutura que estão em processo de instalação ou expansão no Rio Grande do Sul: datacenters, parques eólicos e indústria de celulose.

    A atividade será dividida em três blocos temáticos, com falas de lideranças Mbya-Guarani da Tekoá Guajayvi e da Tekoá Pindó Mirim, representantes do Assentamento Belo Monte e do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais da Lagoa dos Patos, além de pesquisadores do Observatório das Metrópoles e do Comitê técnico de análise e questionamento do EIA RIMA da CMPC Celulose.

    No dia 24 de julho (sexta-feira), às 9h, o Auditório 1 da Fabico/UFRGS sedia o seminário “Perspectivas comunicacionais sobre os desastres climáticos”.

     O evento se divide em duas mesas: a primeira, “Comunicação Pública em Desastres Climáticos” conta com o jornalista e pesquisador Luciano Velleda (mestrando do PPGCOM/UFRGS), o Cacique Odirlei Fidelis (Comunidade Indígena Kaingang Van-Ká) e a jornalista Camila Santos (ex-assessora de imprensa da Defesa Civil-RS); a segunda, “Cobertura Jornalística na Enchente de 2024”, conta com a professora Eloisa Beling Loose (PPGCOM/UFRGS) e os jornalistas Luís Eduardo Gomes (Sul 21) e Katia Marko (Brasil de Fato).

    A presença do Cacique Odirlei Fidelis, cuja comunidade foi diretamente atingida pelas enchentes de 2024 e que mobilizou-se para auxiliar outra comunidade indígena ainda mais afetada, traz uma perspectiva fundamental sobre como a informação chega, ou deixa de chegar, aos territórios em situação de emergência.

    Além do Intervozes, organizam o seminário o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS); o Sindicato de Jornalistas do Rio Grande do Sul (SindiJoRS) e o Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação – FNDC. Também há como apoiadores a Associação Riograndense de Imprensa – ARI; o Brasil de Fato e o Sul 21.

    Os dois eventos são *gratuitos, abertos ao público e contam com recursos de acessibilidade, incluindo intérprete de Libras e audiodescrição.*

    As atividades integram a programação da POACAW, que acontece de 20 a 26 de julho em diversos espaços de Porto Alegre.

    Acesse a programação: https://semanadeacaoclimatica.poa.br/

    Serviço:

    *Roda de conversa* “Vozes amplificadas: os custos socioambientais dos megaempreendimento”Data: 23 de julho de 2026 (quinta-feira)

    Horário: 10h às 12h30

    Local: Sala do Circo – Multipalco (R. Riachuelo, 1089 – Centro Histórico, Porto Alegre)

    Acessibilidade, libras e audiodescrição.

    *Seminário* “Perspectivas comunicacionais sobre os desastres climáticos”

    Data: 24 de julho de 2026 (sexta-feira)

    Horário: 9h às 12h

    Local: Auditório 1 da Fabico/UFRGS (R. Ramiro Barcelos, 2777 – Santana, Porto Alegre)

    Acessibilidade, libras e audiodescrição.

    Entrada gratuita. Aberto ao público.

  • Brasil já tem mais de 8 mil variedades no Banco Mundial de Sementes

    Brasil já tem mais de 8 mil variedades no Banco Mundial de Sementes

    Objetivo é garantir a diversidade vegetal e alimentos em situação de catástrofe, mas o local já sentiu os efeitos do aquecimento climático em 2016

    Márcia Turcato

    Paiol do fim do mu ndo ou arca de Noé dos vegetais são alguns dos apelidos do Banco Mundial de Sementes, localizado no arquipélago noruegues de Svalbard, onde o frio ártico garante a preservação das espécies.

    Neste lugar remoto do círculo polar estão armazenadas mais de um milhão de amostras de sementes de cerca de cinco mil espécies de plantas de todo o planeta e que são reservas estratégicas das nações no caso de um colapso global de safras causado por guerra ou alteração no clima.

    O banco de sementes foi inaugurado em 2008, resultado de uma parceria de longo prazo entre o governo norueguês, por intermédio do NordGen, e a organização não governamental Crop Trust.

    Ele foi projetado para preservar as sementes por milhares de anos a uma temperatura constante de -18° C. O objetivo do banco é o de proteger as sementes da extinção e garantir a segurança alimentar da humanidade. 

    O cofre, localizado na ilha de Spitsbergen, no arquipélago de Svalbard, conserva atualmente cerca de 1,38 milhão de amostras de sementes de mais de 5 mil espécies, originárias de 223 países e territórios.

    Brasil enviou sua primeira remessa de sementes para o Banco Mundial em 2012. Em 2025, foi nova remessa com o envio de 1.351 amostras de arroz e 1.350 de feijão.

    Neste junho de 2026, o Brasil fez nova contribuição ao banco, com 24 acessos, incluindo caju (2), fava (7), amendoim (4), mamona (3) e gergelim (8), vão se somar aos 8.125 já depositados pela Embrapa no silo norueguês.

    A Embrapa mantém um banco genético com cerca de 130 mil amostras de sementes, além de microrganismos, sêmen e embriões de animais, que formam o maior banco de recurso genético da América Latina e o quinto maior do mundo. 

    O Banco Mundial de Sementes tem capacidade para 4,5 milhões de amostras de sementes e o clima glacial do Ártico garante que, mesmo se houver falha no suprimento de energia elétrica das câmaras, as amostras sobrevivam. As câmaras são abertas apenas três vezes durante o ano para não impactar as sementes. A baixa temperatura e a umidade garantem a pouca atividade metabólica das sementes, mantendo a sua capacidade de germinação por séculos. 

    O biólogo Marcos Aparecido Gimenes, coordenador técnico do Sistema de Curadorias de Germoplasma da Embrapa, em Brasília, especialista em genética de plantas, explica que o Brasil aderiu à estratégia do Banco Mundial “porque ela funciona como uma espécie de seguro global da biodiversidade agrícola” . Ele salienta que “a ideia é manter cópias de segurança das sementes mais importantes do país em um local extremamente protegido, evitando perdas provocadas por desastres naturais, mudanças climáticas, guerras ou falhas nos bancos genéticos nacionais”. 

    No entanto, há outro entendimento sobre essa iniciativa global. A Via Campesina Internacional entende que as sementes são patrimônio da humanidade, e não de governos ou empresas, e que as nações precisam ter soberania alimentar, explica o engenheiro agrônomo Álvaro Delatorre, integrante da diretoria do MST- Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Ele diz que “o conceito defendido pela Via Campesina é ameaçado pela hegemonia imposta pelo agronegócio”.

    Para o agrônomo Delatorre, “a produção de alimentos é constantemente ameaçada pela crise ambiental e conflitos armados, que provocam aquecimento global e geram enchente, furacão e estiagem prolongada, por exemplo, e tudo isso leva à extinção de espécies da flora e da fauna, além do uso de agrotóxicos agressivos e de problemas sanitários e de saúde humana”. Ou seja, o problema é causado pelas empresas multinacionais do agronegócio, com ou sem o aval dos governos, e o Banco Mundial de Sementes surge como uma estratégia desses mesmos grupos para sobreviver a um colapso global.

    Do ponto de vista da Embrapa, Gimenes conta que “a participação brasileira está alinhada aos compromissos assumidos pelo país em tratados internacionais ligados à conservação da biodiversidade agrícola e que todo material enviado para Svalbard também deve possuir uma duplicata conservada na Colbase da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, que tem condições de conservação equivalente às do banco mundial”.

    Participam da iniciativa em Svalbard governos, instituições de pesquisa e bancos genéticos que optam por armazenar duplicatas de sementes no local. “Muitos países participam, mas a adesão não ocorre automaticamente por fazer parte da ONU (Organização das Nações Unidas)”, explica Gimenes. Na prática, a maior parte dos participantes está vinculada aos acordos internacionais de conservação genética e biodiversidade coordenados pela FAO (órgão da ONU para a agricultura) e outros organismos multilaterais. 

    Sobre a resistência das sementes armazenadas na ilha, frente a alguma catástrofe, Gimenes salienta que “o objetivo do projeto é justamente funcionar como um sistema de segurança para conservação de sementes em cenários extremos”. Ele destaca ainda que “o cofre do Banco Mundial de Sementes é administrado em parceria pelo governo da Noruega, pelo NordGen- Centro Nórdico de Recursos Genéticos- e pelo Crop Trust.Trata-se de uma cooperação internacional e não de uma empresa privada”.

    O agrônomo Delatorre acredita que o Banco Mundial de Sementes, como estratégia global, talvez consiga garantir a reprodução das espécies em caso de catástrofe ambiental, “mas a questão é a quem interessa essas estratégias, quem irá se beneficiar. Se esses protagonistas da estratégia estivessem mesmo interessados em salvar a humanidade do colapso da fome, deveriam se preocupar com as 800 milhões de pessoas que passam fome no planeta”. 

    A Síria foi a primeira vítima da guerra a recorrer ao Banco Mundial. A primeira retirada de sementes do Banco Mundial aconteceu em 2015, quando o banco genético da cidade de Aleppo foi bombardeado durante um conflito civil. Foi então que pesquisadores solicitaram exemplares de trigo, cevada e grama para dar continuidade às suas pesquisas e garantir o futuro alimentar da população. A crise na Síria, no entanto, não está resolvida, frente aos constantes bombardeios do governo Israel sob pretexto de combater terroristas. 

    Arquipélago Svalbard

    As ilhas de Svalbard já foram consideradas como “terra de ninguém” e durante vários séculos eram visitadas somente por pescadores de baleias e caçadores. O arquipélago foi incorporado à Noruega em 1925 pelo Tratado de Svalbard, assinado em Paris. A região ficou sob a soberania norueguesa, mas sujeita a um regime especial de acesso aos seus recursos naturais pela comunidade internacional.

    Svalbard tem um clima muito frio e não possui uma população originária e permanente, mas registra cerca de três mil moradores temporários, principalmente noruegueses e russos. Em algumas ilhas do arquipélago ainda ocorre extração de carvão, principalmente realizada por mineradores russos. 

    Mesmo fazendo parte do círculo polar ártico, em outubro de 2016 o futuro do Banco Mundial de Sementes foi ameaçado pelo aquecimento climático. Temperaturas excepcionalmente altas no Ártico provocaram fortes chuvas e derretimento do gelo de Svalbard, resultando na entrada de água no túnel de acesso à câmara do banco. Apesar do banco e das sementes não terem sido afetadas, o governo da Noruega precisou reforçar as paredes da estrutura, confirmando que o aquecimento global é um fato irreversível e que atinge até mesmo as regiões mais geladas do planeta.

  • Terremotos que atingiram Venezuela são os maiores e foram sentidos em Belém e Manaus

    Terremotos que atingiram Venezuela são os maiores e foram sentidos em Belém e Manaus

    Dois fortes terremotos consecutivos  de magnitude 7,2 e 7,5 e intervalo de 39 segundos atingiram a região centro-norte da Venezuela  no início da noite desta quarta-feira, 24 de junho de 2026.

    Por terem sido superficiais (entre 10 km e 22 km de profundidade), causaram destruição severa e pânico generalizado. Foram descritos por um sismólogo como “devastadores”. São os maiores desde 1812, quando um grande terremoto destruir parcialmente Caracas.

    O epicentro foi no estado de Yaracuy (próximo a Yumare e San Felipe), mas o impacto foi sentido com força em vários estados e em países vizinhos.

    Localizada a quase 300 km do epicentro, a capital Caracas sofreu graves impactos estruturais. Vários edifícios e casas desabaram por completo, especialmente nos bairros de Altamira, Chacao e Los Palos Grandes.

    Prédios comerciais (incluindo um banco) vieram abaixo, fachadas ruíram e nuvens de poeira cobriram bairros inteiros.

    O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) emitiu um alerta  projetando que o número de mortes pode ser extremamente alto (com probabilidade significativa de ficar em mais de dez mil mortes e os prejuízos econômicos podem ultrapassar 10 bilhões de dólares.

    Até o momento, equipes de resgate buscam sobreviventes presos sob os escombros.

    O Aeroporto Internacional Simón Bolívar em Caracas foi danificado e teve todos os voos suspensos. O governo ordenou o corte emergencial do fornecimento de gás encanado em Caracas para evitar explosões e incêndios nos prédios colapsados.

    Os tremores foram tão fortes que balançaram prédios em Bogotá (Colômbia) e foram nitidamente sentidos no norte do Brasil, com relatos de moradores em Manaus e Belém.

    A Venezuela está posicionada sobre a complexa zona de fronteira entre a Placa Tectônica do Caribe e a Placa Sul-Americana.

    Cerca de 80% da população do país vive em áreas de alto risco sísmico. Históricamente, o país já enfrentou outros grandes desastres:

    O Terremoto de Caracas (1967): De magnitude 6.6, atingiu exatamente as mesmas áreas (Altamira e Los Palos Grandes), deixando cerca de 300 mortos e mais de 1.500 feridos.

    Idosos que testemunharam o terremoto de 1967, relataram que que este agora foi consideravelmente pior.

    Em 1997, outro forte abalo que causou graves destruições no nordeste do país. Em 2018, o Terremoto de Sucre (2018) teve magnitude de 7,3. Na ocasião, embora tenha assustado e sido sentido em dez países (incluindo o Brasil), seu foco foi muito mais profundo, o que evitou colapsos de prédios e mortes em grande escala.

    O mais antigo registrado é de 1812, que destruiu grande parte de Caracas e outras cidades importantes, sendo um dos mais letais da história do país.

    O especialistas descartam relação dos terremotos com o fenômeno do El Niño ou as mudanças climáticas. Os terremotos, explicam,  são fenômenos puramente geológicos que ocorrem a quilômetros de profundidade na crosta terrestre, movidos pelo calor interno da Terra, enquanto o clima e o El Niño operam na atmosfera e na superfície dos oceanos.



  • Desmatamento na Amazônia cai 61% em maio e faz prever menor taxa anual já registrada

    Desmatamento na Amazônia cai 61% em maio e faz prever menor taxa anual já registrada

    O desmatamento na Amazônia teve redução de 61,4% em maio deste ano, em relação ao mesmo mês de 2025.

    É a maior redução já registrada na região. Dos 960 quilômetros registrados em maio de 2025, a derrubada caiu para 370 quilômetros quadrados no mês passado.

    A divulgação dos dados mereceu  visita do presidente Lula ao Observatório Regional Amazônico, em Brasília.

    Os números, gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), orientam as equipes em campo para ações de combate ao desmatamento.

    A queda em maio é importante porque é neste mês que o desmatamento aumenta,  com o início da estação seca na Amazônia.

    O resultado alimenta a expectativa de que a taxa anual de desmatamento a ser consolidada em 31 de julho deste ano, será a menor desde que se tem registros. De agosto até agora, a queda no desmatamento foi de 37,5%.

    “Isso mostra que o controle de desmatamento na Amazônia está funcionando”, segundo o ministro do Meio Ambiente, Joã Paulo Capobianco

    Cerrado

    O Inpe apresentou ainda os dados de alertas para o Cerrado, que apontam para uma tendência de queda no desmatamento no bioma. Em maio de 2026, houve redução de 12,2% no desmatamento, em relação a maio do ano passado.

    Para o período agregado de agosto de 2025 a maio deste ano, a queda na supressão de vegetação foi de 8,2% em relação ao período anterior. Foram de 4.208 quilômetros quadrados de floresta desmatada.

    Acusação

    A persistência do desmatamento ilegal no Brasil é uma das alegações dos Estados Unidos para a imposição de tarifas adicionais a produtos brasileiros importados no país.

    No início deste mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sugeriu uma taxação punitiva de 25% diante de práticas brasileiras “irrazoáveis” e que “oneram ou restringem” o comércio estadunidense.

    Na avaliação do USTR, mesmo o Brasil tendo um marco legal para combater desmatamentos ilegais, o país tem um histórico de falhas na sua aplicação eficaz.

    O ministro Capobianco ressaltou que os dados mostram o contrário. “A Amazônia está numa nova situação com controle ambiental, com resultados realmente muito positivos”, disse.

    O presidente Lula reforçou que os Estados Unidos estão equivocados quando questionam as ações do Brasil contra o desmatamento. “Eles não sabem o trabalho que nós fazemos para fazer com que o desmatamento chegue a zero até 2030”, disse Lula sobre as metas brasileiras na área do meio ambiente e mudanças climáticas.

    (Com Agência Brasil)

  • Exportação de carne suspensa: Europa quer garantias sobre uso de antibióticos

    Exportação de carne suspensa: Europa quer garantias sobre uso de antibióticos

    A entrada de carne brasileira estará suspensa nos países da União Européia a partir de setembro. A decisão, anunciada há um, mês foi oficializada nesta sexta-feira, 5.

    A justificativa é que o Brasil não conseguiu comprovar que seus produtores atendem as exigências sanitárias europeias, especialmente quanto ao uso de antibióticos ( também chamados antimicrobianos).

    Esses medicamentos são indicados para tratar infecções em animais, mas são usados indevidamente para estimular o crescimento e aumentar o peso. Eles já estão proibidos no país desde abril, mas a União Européia quer garantias e provas.

    A União Europeia é um dos principais mercados para as proteínas animais brasileiras. No caso da carne bovina, o bloco europeu aparece entre os maiores destinos das exportações brasileiras em valor. 

    As restrições ao uso de antibióticos fazem parte da política europeia de segurança alimentar e saúde pública conhecida como One Health, criada para combater o uso excessivo de antibióticos no mundo.

    Entre os produtos restritos pelos europeus estão substâncias como virginiamicina, avoparcina, tilosina, espiramicina, avilamicina e bacitracina.

    A cautela europeia não significa necessariamente que a carne brasileira esteja contaminada por medicamentos.

    O principal objetivo da decisão europeia é regulatório e envolve rastreabilidade sanitária, certificação e comprovação documental sobre o uso dos medicamentos.

    Na pecuária tradicional, alguns tipos de antibióticos são misturados à ração em doses baixas para funcionar como “promotores de crescimento”. Eles mudam a flora intestinal do animal, fazendo com que ele absorva melhor os nutrientes, gaste menos energia combatendo microinfecções e, consequentemente, ganhe mais peso em menos tempo.

    O uso contínuo de antibióticos em animais cria bactérias ultra-resistentes. Essas “superbactérias” podem passar para os humanos através do consumo ou manejo da carne.

    Para voltar à lista dos países autorizados a vender os produtos vetados, o Brasil precisará comprovar que cumpre as regras europeias durante todo o ciclo de vida dos animais exportados.

    Isso exige monitoramento detalhado da cadeia produtiva, certificações sanitárias adicionais e custos maiores para produtores e frigoríficos.

    A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec)disse em nota que o Brasil conta com um “dos sistemas de inspeção e defesa agropecuária mais robustos do mundo” e a carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios de mais de 170 países, incluindo os principais mercados internacionais, cumprindo “rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente”.

    A decisão não significa que a carne brasileira esteja contaminada. O bloco removeu o Brasil da lista porque o governo e os produtores ainda não conseguiram fornecer documentos e sistemas de fiscalização oficiais que comprovem, animal por animal, que essas substâncias banidas não foram utilizadas.

  • Voltada para a fábrica de 25 bilhões, Barra do Ribeiro vive dias de incerteza

    Voltada para a fábrica de 25 bilhões, Barra do Ribeiro vive dias de incerteza

    Numa caminhada pelo centro de Barra do Ribeiro é possível andar dois quarteirões, quinta-feira às duas da tarde, sem encontrar uma só pessoa.

    Mas as aparências enganam na pacata cidade de 12 mil habitantes, de casas baixas e ruas silenciosas, defronte a Porto Alegre, na outra margem do Guaiba.

    Basta bater numa porta e puxar conversa para perceber que Barra do Ribeiro está em ebulição:  um negócio de R$ 25 bilhões incendeia o imaginário dos barrenses.    

    “Maior investimento da história do Rio Grande do Sul’, todos repetem. E sabem os  números de cór: 13 mil empregos na obra durante três anos, quatro mil na operação regular, 900 caminhões por dia com toras de eucalipto, bilhões de dólares de exportações de celulose por ano.  

    O dono do restaurante que oferece buffet livre com churrasco a 40 reais no centro de Barra do Ribeiro faz um cálculo: “Treze mil trabalhadores, duas refeições para cada um, são 26 mil refeições por dia, um milhão por dia”   

    O secretário de Desenvolvimento, Everton Antunes estima que 1.200 empresas se instalaram ou estão se instalando na cidade desde que o empreendimento foi oficialmente anunciado há dois anos. Dois mil prédios estão projetados – casas, galpões, edifícios para comércio e moradia.

    A maior empresa do município, a Tecnoplan, que tem 700 empregados e produz mudas para plantios florestais, vinculados à indústria de celulose, vai aos poucos sendo superada por grandes negócios imobiliários. Uma única empresa já aprovou loteamento para seis mil terrenos.

    As grandes marcas regionais – Colombo, Quero-Quero, Benoit, Becker – já exibem seus logotipos em fachadas coloridas nas ruas principais.

    As pousadas, que sempre viveram do veraneio, estão todas lotadas.  

    “Terreno aqui virou ouro”, diz o secretário de Desenvolvimento do Município, Everton Antunes. O preço dos terrenos triplicou – um lote de 300 metros quadrados num dos novos loteamentos não sai por menos de R$ 250 mil e, conforme a localização, pode chegar a R$ 1 milhão. Ele prevê “um  novo desenho” da cidade, com o aumento da população.

    É tradição em Barra do Ribeiro o carro de som que percorre as ruas comunicando o “passamento” de figuras ilustres da cidade. “Deus me livre, morrer e não ser anunciado no alto-falante”, brinca o secretário. Agora, segundo ele, a principal atividade do carro de som é percorrer as ruas anunciando empregos.

     Na unidade do Sine, por exemplo, há oferta de vagas para 130 cozinheiras por conta das empresas, inclusive de outros Estados, que se preparam para fornecer alimentação para os trabalhadores da fábrica. Cursos do Sesi e do Senai formam trabalhadores. A prefeitura pensa até em uma escola de gastronomia. “Somos a estrela da coroa”, diz o secretário Everton.

    Mas Barra do Ribeiro vive em sobressalto desde março. Uma ação civil pública, ajuizada pelo ministério público federal, pede a suspensão do licenciamento ambiental para que sejam consultadas as comunidades indígenas ou quilombolas afetadas pelo projeto e considera insuficientes os dados apresentados sobre o impacto hídrico da operação industrial.  

    A empresa, a chilena CMPC, uma das maiores “papeleiras” do mundo,  argumenta que se for cumprir as exigências o projeto perderá a oportunidade e pode ser transferido para outro lugar. Um diretor da empresa chegou a mencionar o Paraguai.

    A justiça federal não mandou parar o processo de licenciamento, mas a incerteza quase paralisa Barra do Ribeiro. “Nem é bom pensar” diz Jorge Wurdig. editor do Novo Tempo, o jornal da cidade. “Seria um retrocesso sem nome”, diz ele referindo-se à hipótese de não sair o projeto. Mas não está pessimista: “No ponto que chegou, não tem volta”.

    Na revenda cheia de carros na rua principal, o gerente não esconde a ansiedade: “Toda essa expectativa, agora estão tão dizendo que não sai mais”. Ele partilha da opinião corrente na comunidade, de que as exigências do Miniestério Público “são coisas absurdas”.  Neto do fundador, ele toca o negócio com o pai e diz que está preparado para levar adiante, mesmo sem a fábrica.

    Aos 53 anos, o secretário Antunes, nascido em D. Feliciano, tem 40 anos de Barra do Ribeiro e se considera um “barrense”. “A gente não quer acreditar”, diz ele sobre a possibilidade de transferir o projeto para outro país, como a empresa ameaçou. Ele não discute a questão ambiental, acha que há exagero quanto aos impactos. “Eles são confiáveis, usam a melhor tecnologia”, garante. “Não conheço ninguém que seja contra”, diz ele, abrindo o casaco para mostrar a camiseta da campanha pela fábrica. Mas há protestos? “Aqui, andaram umas mocinhas gravando vídeos na beira do rio, falando com pescadores, muitos nem pescadores são, a gente conhece”, minimiza.

    Um comitê, formado por professores e técnicos ligados a universidades e entidades de proteção ambiental, publicou um relatório apontando os riscos de contaminação da água devolvida ao rio, num volume equivalente ao consumo diário de toda a população de Porto Alege. Produtos químicos renitentes, usados no processo de branqueamento da celulose, podem representar risco à saúde pública, já que toda a água potável de Porto Alegre e região é captada no Guaíba.  

    A ação ajuizada em março, paralisou tudo em Barra do Ribeiro. O suspense agravou-se quando representantes da empresa passaram a falar na hipótese de transferir o projeto, até para outro país. As preocupações ambientais, se existiam, dissolveram-se.  “Desconheço quem não quer a fábrica”, diz o secretário. Ele acredita no que os diretores da empresa afirmam que a água devolvida ao Guaiba no ciclo industrial será mais limpa do que entrou. Garante que beberia um copo dessa água.