Felisberto Seabra Luisi nasceu em Porto Alegre, mas viveu infância e adolescência em Cruz Alta, para onde se mudaram seus pais.
Tinha 15 anos quando voltou à cidade natal. Estudou no Rosário, formou-se em Direito na Ufrgs, especializou-se em Direito Agrário na Itália. Tinha 40 anos quando começou a realmente conhecer sua cidade. Não descansou mais.
Em 2026, aos 75, aposentado, ele comemora 35 anos de dedicação quase exclusiva aos movimentos comunitários de Porto Alegre. É com essa autoridade que ele fala ao JÁ e faz um balanço de mais de três décadas de atuação nos movimentos comunitários de Porto Alegre, critica a falta de participação popular e alerta: “O Plano Diretor avança (em votação na Câmara Municipal) sem debate e favorece interesses privados”.
JÁ – Tem uma data que marque o início dessa tua militância nos movimentos comunitários?
Felisberto – Em 1991 eu fui contratado por uma “invasão” na Zona Sul. Eles tinham ocupado uma área e precisavam de um advogado para a defesa. Cheguei nessa comunidade num domingo, onze horas da manhã, nos reunimos embaixo de uma árvore e eles perguntaram: “Doutor, você vai resolver o nosso problema?” Eu disse: “Não, nós vamos resolver o problema”.
JÁ – Eles entenderam?
Felisberto – Sim, começamos a criar uma estrutura na própria comunidade para respaldar a defesa jurídica e também reunir dinheiro para a eventualidade de comprar a área. E foi o que aconteceu.
JÁ – E eles compraram a área?
Felisberto – Em quatro anos conseguimos comprar a área. Primeio, foi arrecadado R$ 50 mil e, aí, sentamos para negociar com o proprietário. Ele pediu 100 mil, a gente disse: “Damos 50 mil de entrada e queremos negociar os outros 50 mil”.
JÁ – O dono topou…
Felisberto – Topou. Eu queria 24 meses. A comunidade disse: “Não, nós vamos pagar em 12 meses”. E pagaram em 12 meses.
JÁ – Que comunidade é essa?
Felisberto – Jardim das Estrelas. Fica na Cristiano Kleber quase esquina com a Juca Batista. Hoje está urbaniza, com calçamento, água, luz, esgoto… Só ainda não está regularizada a área, não estão individualizados os terrenos. É um processo, eles seguem tratando disso.
JÁ – Essa foi tua iniciação no movimento comunitário?
Felisberto – Foi a partir daí que conheci o Orçamento Participativo (OP), entrei como delegado dessa comunidade… e não saí mais. Fiquei fora dois anos, de 2007 a 2009, pela doença da minha filha, mas isso é outra história.
JÁ – Como funcionava o OP na época?
Felisberto – Estava começando, com o Olívio Dutra na prefeitura. Nas reuniões, na mesa, sentavam os representantes do governo, só. Na primeira reunião, eu disse: “Tem uma coisa errada nesse processo aqui”. Os caras me olharam: “Como?”. “Só tem governo aí, vocês trazem a pauta, decidem os assuntos, nós temos que democratizar essa relação. Tem que ter alguém da comunidade aí na mesa”. Aí foi criada a comissão paritária.
JÁ – O que que é essa comissão paritária?
Felisberto – Ela coordenava o processo. Eram oito, quatro do governo e quatro da comunidade. Se reuniam, faziam a pauta e coordenavam as reuniões.
Mas isso era uma primeira parte de todo o processo. Porque não basta demandar, tem que estabelecer uma relação, para acompanhar a execução orçamentária, determinar o início da obra, não só a critério do governo.
Na sequência, em 2002, foi criada a comissão de receita e despesa. Foi o avanço possível na época. A minha proposta era mais ousada, era ter um membro do OP na junta financeira, acompanhando as decisões. Não conseguimos, nem lá e muito menos agora?
JÁ – E as discussões sobre o Plano Diretor?
Felisberto – Pois, é… Nesse período, começaram as discussões sobre o Plano Diretor e eu comecei a participar. O secretário era o Newton Burmeister, foi constituída uma coordenação e começamos a fazer o Plano Diretor que foi aprovado em 99, já no governo do Raul Pont.
Como eu era muito envolvido nas ocupações, e questões de regularização fundiária, fui eleito vice-presidente do Conselho Municipal.
Além de estar no OP, eu também participava do PMDUA, eu era delegado pela região 1 de planejamento, que abrange o Centro. Hoje eu sou conselheiro.
JÁ – Estás no conselho desde quando?
Felisberto – Eu fui eleito em 2018 e reeleito naquela votação maravilhosa lá em janeiro de 2024, com mais de 1.500 pessoas lá na Câmara, com 941 votos.
JÁ – Foi surpreendente aquela eleição, não?
Felisberto – Até hoje é uma coisa que não tenho ainda bem elaborada. Imagina as pessoas ficarem num sol, num verão, nas férias, até meia-noite, para votar numa eleição que não era obrigatória. Foi uma vitória contra a especulação imobiliária.
JÁ – Mas o novo Plano Diretor que está em votação na Câmara… .
Felisberto – Claro, o plano é deles, eles têm maioria. Nós vencemos numa região. Em outras regiões a gente não conseguiu vencer.
JÁ – Esse projeto que está na Câmara vai ser aprovado?
Felisberto – A tendência é aprovar. Infelizmente… Não sem luta, né?
JÁ – Qual é o ponto mais crítico nesse plano?
Felisberto – A falta de participação e transparência do plano, para que as comunidades tenham noção do impacto que as mudanças propostas no plano vão ter na região onde elas moram.
JÁ – A comunidade não tem noção do impacto na vida dela?
Felisberto – Não, não tem mesmo a noção. A gente nota isso nos bairros, nas reuniões. Hoje há um poder de sedução do capital, fazem as grandes obras e oferecem alguma contrapartida. E as pessoas se deixam seduzir pela contrapartida. Por exemplo: precisa melhorar uma creche. A prefeitura diz que não tem como fazer e aí usa o recurso da contrapartida para fazer. Então, é uma obrigação do governo que o governo não faz, vai buscar o dinheiro do empresário, e dá em troca uma vantagem. O projeto é viabilizado com essa lógica.
JÁ – Falta discussão sobre essas questões, é isso?
Felisberto – A coisa mais crítica que eu vejo no processo é a falta de discussão das estratégias da cidade. Não há uma discussão com a sociedade. Que cidade a gente quer? Nós temos 700 comunidades vivendo em áreas irregulares, ocupações, invasões, loteamentos clandestinos… Se fizéssemos uma operação urbana consorciada, como foi feito em Fortaleza, seria uma revolução.
JÁ – O que que significa essa regularização? Qual é o tamanho do problema?
Felisberto – Um exemplo é o Jardim das Estrelas, essa comunidade na Estrada Cristiano Fischer. Até hoje ela não tem a regularização. Tem a infraestrutura conquistada pelo OP, porque tinha liderança que brigava e conseguiu levar as melhorias. Mas a regularização da área eles não têm, ninguém tem matrícula individualizada.
Na maioria das comunidades não há sequer o mínimo de urbanização. Se estimular essa regularização e serviços urbanos, isso vai gerar trabalho e renda na própria comunidade, pois com o título do terreno, o morador consegue financiamento para construir uma casa ou reformar a que já tem. Em muitos casos, já tem a mão de obra ali mesmo na comunidade…
JÁ – Estimularia uma economia local…
Felisberto – Sim, hoje a construção civil da cidade traz mão de obra de fora. Se fizer uma pesquisa hoje, grande parte da mão de obra nos grandes projetos vem de fora, do Norte e do Nordeste. Tem muito baiano, carioca. Essa reforma do viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros… a empresa é de São Paulo, trouxe toda a mão de obra de lá, nordestinos que vivem lá. Noutras obras é a mesma coisa. Então, há uma falsa ideia de que a construção civil emprega as pessoas da cidade.
JÁ – A cidade sabe disso?
Felisberto – O que determina é o interesse do capital, não o interesse da cidade… Sempre, infelizmente, o interesse privado em detrimento do público. A prefeitura governa para o privado. Ou melhor, com o privado. Porque a maioria das pessoas que ocupam cargos na prefeitura são ligadas a empresas. O ex-secretário de Parcerias Estratégicas, Bruno Vanuzzi, saiu da prefeitura e foi trabalhar no Golden Lake, da Multiplan. Agora, voltou para o poder público como diretor do Dmae, com a “missão de fazer a concessão à iniciativa privada”. Pode?
JÁ – É uma privatização do serviço público?
Felisberto – Não se valoriza mais o servidor, aquele de carreira, que teria a memória dos processos. Veja a concessão da usina do Gasômetro: não visa o interesse público, mas o interesse privado. Essa lógica tomou conta da cidade.

JÁ – Um dos maiores projetos da prefeitura é essa “Operação Urbana Consorciada Regenera Dilúvio”, ao longo da avenida Ipiranga… como ele se insere aí?
Felisberto – Eles gostam dessa palavra regenerar… revitalizar… para quem? Essa operação grandiosa da Ipiranga, começa com dinheiro público. Mais de R$ 200 milhões, empréstimo do BNDES, para limpar o riacho. Aí, aqueles que já compraram os melhores terrenos ganham incentivos para construir condomínios e grandes torres sem restrições ou limites. Ao longo da avenida plantam-se algumas árvores e faz-se uma ciclovia, como contrapartida. É isso, hoje a gerência dos grandes espaços públicos está sob controle privado.
JÁ – O prefeito Sebastião Melo tem uma sólida maioria que aprova todos os seus projetos…
Felisberto – Essa maioria esmagadora que ele tem na Câmara, foi construída através de emendas e de indicação de CCs…
JÁ – A questão central do Plano Diretor que está na Câmara é o adensamento – mais gente no mesmo espaço?
Felisberto – Há questões essenciais aí. Primeiro, é a falta de infraestrutura. Segundo, é a descaracterização dos bairros e da paisagem urbana. Daqui a dez anos não veremos mais os morros que contornam Porto Alegre. Há uma descaracterização da cidade, como algo diferente das outras.
JÁ – O adensamento é justificado como possibilidade para o trabalhador morar no Centro…
Felisberto – Os pobres vão vir morar no Centro? Isso é uma mentira, uma conversa. As pessoas já moram na periferia em situações que precisam ser regularizadas. Por isso digo que seria revolucionário se tivéssemos um prefeito que tivesse a capacidade de ter essa visão. Vamos melhorar o que já tem.
JÁ – Se você fosse prefeito, tivesse a caneta, faria o quê?
Felisberto – Primeiro ia regularizar as 700 comunidades que precisam ser regularizadas. Isso geraria trabalho, renda e melhorias para mais de 500 mil pessoas.
JÁ – É tanta gente assim?
Felisberto – É, quase meio milhão de pessoas, mais de um terço da população de Porto Alegre, quase 40%, que vivem em situação irregular, ilegal na verdade.
JÁ – Que universo é esse?
Felisberto – Envolve desde situações relativamente sustentáveis até as situações dramáticas, como comunidades que esperam há mais de 30 anos pela regularização.
JÁ – Mas a prefeitura anuncia entrega de títulos…
Felisberto – Não adianta dar título se não urbaniza. É simplesmente a garantia para a pessoa. E a maioria vai vender. As pessoas estão de tal maneira espremidas pela necessidade que aceitam qualquer coisa.
Por exemplo, tem uma série de estudos sobre as mudanças climáticas, dizendo que a cidade está sujeita a ilhas de calor, enchentes… E o que se faz na cidade é o oposto do que deveria ser feito levando em conta essa realidade. O centro de Porto Alegre, por exemplo, foi todo lajotado. A temperatura deve chegar a 50 graus ali, nos dias mais quentes. O Paulo Brack mediu ali no Harmonia onde retiraram as árvores, deu mais de 45 graus.
O prefeito captou quase 7 bilhões de financiamento para aplicar em obras de reconstrução, melhorias e revitalização da cidade. Vai ver as obras, são aquelas em que os empresários têm interesse. Vi o representante do Sinduscon dentro do plenário da Câmara, negociando com vereadores. Muitos vereadores não sabem nem o que é o plano diretor e a lei de uso e ocupação do solo. Separaram o plano diretor da lei de uso e parcelamento do solo. Por que separaram?
Agora, onde é o Teatro do Pôr-do-Sol, querem fazer um centro de eventos, uma marina – agora se diz Orla 2.. É tudo mega ideias, tudo com dinheiro público. Financiado pelo BNDES, pelo BRDE… Aí é maravilhoso. Além disso, o Estado se endivida para privilegiar os interesses privados, não o interesse público. Não há melhoria das vilas, como eu disse. Hoje é um débito da prefeitura com as emendas do OP de mais de R$ 1 bilhão.
JÁ – O que acontece que essas informações não chegam à população?
Felisberto – São muitos fatores. Um deles é que a população está tão premida pela necessidade que se preocupa em sobreviver, certo? Ela não vai se preocupar. Plano de emergência não é uma coisa que afeta ela, vamos dizer, diretamente, mas afeta, mas ela não percebe. Se percebe, não é um problema imediato na vida dela. Então acabam deixando de lado.
A população, ela não consegue perceber com a linguagem técnica, não é acessível para ela entender. Então, eu acho que isso é um grande problema.
E os meios de comunicação também, não é?
JÁ – Qual é a situação do OP hoje?
Felisberto – Hoje o recurso direcionado para o OP é de R$ 20 milhões. Desse total, 16 ou 17 milhões vão para as regiões do orçamento participativo, que são 17. Vai um milhão para cada uma, mais ou menos. E o restante vai para as temáticas que são seis, em torno de 500 ou 600 mil para cada. Parece que neste ano serão R$ 25 milhões. Eu sou de uma época em que o OP tinha R$ 500 milhões nos valores de hoje.
JÁ – O OP perdeu as suas características e representatividade…
Felisberto – É o que já falei: os conselheiros estão tão premidos que se contentam com qualquer coisa.
JÁ – Quando conheceste o prefeito Sebastião Melo?
Felisberto – Melo chegou em Porto Alegre, em 1977 ou 78, foi trabalhar numa lancheria, ali na avenida Borges de Medeiros, como chapista, e morava em cima. Ele diz também que foi carregador de caixas no Ceasa… Claro, ele tem mérito, tornou-se advogado, fez nome, entrou na política, era da esquerda do MDB. O que lamento é um cara que condecorou o Che Guevara, quando era presidente da Câmara, trabalhar hoje para a direita, para dizer o mínimo.
Ele subia numa caixa, na Esquina Democrática, junto com o José Fogaça, em atos contra a ditadura, sabe? E outros defendendo, sabe? Hoje é um cara aliado com a extrema direita. Essa transformação, ou essa adaptação, me decepciona, porque eu era amigo dele. Ainda tenho amizade com ele, mas me afastei dele.
JÁ – Ele é o grande defensor do tal adensamento, quer dobrar o número de moradores no Centro Histórico, para aproveitar a infraestrutura.
Felisberto –Eu bato de frente contra isso. Porque não existe um estudo sobre isso, não há mínima avaliação do que a infraestrutura da região central pode suportar. Quero que me provem. Eu acompanho isso há muito tempo, nunca vi um estudo que diga: “Tem infraestrutura ociosa, rede de esgoto, água, telefonia”. Nessa reforma do Viaduto Otávio Rocha, tiveram que refazer todas as canalizações, estava tudo entupido, sucateado. E mais: vai ter posto de saúde, vai ter escola, creche, transporte para essa população?
O prefeito se gaba de conhecer a cidade melhor que muito porto-alegrense. Ele não conhece o centro, não conhece a história da cidade, não entende a alma da cidade.
JÁ – As vilas, ele conhece?
Felisberto – Não, nem as vilas ele conhece. Ele é um personagem, cumpre um papel. Ele vai lá porque o levam. Ele não conhece a história da cidade, nem do bairro que ele morou.
JÁ – Qual é o bairro?
Felisberto – Morava lá na zona sul. O mais grave de tudo não é a ousadia dele, é a omissão geral. Eu não sou técnico, não sou engenheiro, não sou urbanista. Sou um cidadão que tem uma visão de cidade e não se conforma com o que estão fazendo com ela.









Os guardas da portaria estimavam que duas mil pessoas estavam lá dentro sob um calor sufocante. “Um calor de forno alegre”, como dizia uma senhora, abanando-se com um leque. “O que eles querem é que a gente desista, mas não vão levar: vamos ficar aqui até a hora que precisar”, disse Cenir Monteiro, comerciante, morador da rua Riachuelo, com um adesivo de “Fora Melo” colado na camisa. O bordão “Fora Melo” retumbou várias vezes pelos corredores apinhados. Os mais otimistas estimavam que a votação iria até as 22 horas. Uns mais animados preparavam-se para ir “até a meia-noite”.

Palestra de abertura: “Processos de financeirização e decrescimento populacional em contexto de revisão do Plano Diretor de Porto Alegre”
04/10 (quarta-feira)
19h
Solar do IAB/RS: Rua General Canabarro, 363 – Centro Histórico, Porto Alegre
Convidados: Clarice Oliveira (IAB RS), Mário Lahorgue (Observatório das metrópoles), Nicole Almeida (doutoranda do PROPUR/UFRGS). Mediação: Vanessa Marx (Observatório das metrópoles).





